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sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

A Vida e a Vida de Camila


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Raiva, frustração, sede de vingança, sentimentos por muitos considerados perigosos e negativos, capazes de deformar a personalidade de alguém, quando combinados com amor-próprio, determinação e astúcia, também podem influir positivamente, ajudando a pessoa a vencer barreiras, a resistir aos tão famosos momentos de fraqueza e a encontrar o verdadeiro amor. Calma porque isso aqui não tem nada a ver com autoajuda. 

Camila nasceu, filha única de uma família de classe média, bem de vida. Pessoas honestas, conscientes, dedicadas a preservar a felicidade que sempre lhes sorriu, sem prejudicar quem quer que fosse. Camila teve, como se costuma dizer, tudo que precisava e queria da vida: estímulo da família , boas escolas, amigos divertidos, lazer à sua escolha, liberdade sem omissão. Cresceu, enfim, sem maiores traumas, nem mesmo o da superproteção. Sua mãe e seu pai viviam e a deixavam viver.
Namorou, sem compromisso. Achou engraçado descobrir que era possível sentir uma forte amizade e um relativo amor, aquele que em certa fase da vida não sabemos até onde vai, nem ao menos se vai ou se fica. Logo se cansou. Percebeu que não levava a nada sair hoje  com um, amanhã com outro, depois de amanhã sozinha. No último ano da faculdade, ficou noiva. As dúvidas se dissiparam, um horizonte claro e promissor se abria para os dois. Como era de se prever, teve que ouvir das tias e amigas das tias as tradicionais e surradas expressões: "casal perfeito", "parece mesmo que nasceram um para o outro" e outras baboseiras do gênero. Camila sorria, compreensiva. Marcaram a data, distribuíram os convites.
Às vésperas do casamento, por uma feliz ou infeliz coincidência, na hora não sabia dizer qual dos dois adjetivos se aplicava melhor à situação, descobriu que sua melhor amiga também era a "melhor amiga" de seu noivo e mantinha com ele um relacionamento que ia muito além da amizade pura e simples. Em resumo, encontrou os dois sozinhos, abraçados e despidos no quarto do apartamento onde iria morar com o tal noivo, que um dia julgou amar loucamente. Ainda se lembra de ter ouvido a voz engasgada da ex-amiga balbuciando algo como "foi só a despedida de solteiro..."
Passou a noite inteira rolando na cama, chorando. O ódio tomou conta de todo o seu corpo e espírito. Mais tarde, sua mãe contou que ela chegou a ficar roxa, literalmente roxa de raiva. Quase de manhãzinha, Camila pensou: "Por pouco não mato os dois com um facão de cozinha". Em momentos como esse, tão nervoso e tenso, não é possível lembrar de coisas simples e práticas, tais como o fato de que não havia talheres e facões na cozinha do apartamento ainda desabitado. Faqueiros e louçaria ganham-se como presentes de casamento. Eis aí um detalhe que, portanto, não vem ao caso.
O tempo passou. Camila se formou em arquitetura, a ex-amiga sumiu, não se sabe se sozinha ou acompanhada do ex-noivo. Embora não tivesse uma índole rancorosa, era natural que Camila se fechasse para o mundo ou, pelo menos, para certas coisas do mundo. Ninguém dizia nada, e Camila preferia assim.
No dia em que completou vinte e cinco anos sentiu que toda a sua vida prendia-se ao passado. Embora trabalhasse em um escritório de arquitetura com projeção internacional, ainda que recebesse diariamente o carinho de sua família, sempre presente, mesmo assim Camila julgou que estava na hora de mudar, enterrar o passado de sofrimentos e sair em busca de uma vida realmente nova.
Foi o sinal que seu chefe no escritório esperava para inicar a corte. Primeiro convidou-a para uma ida juntos à Casa Cor; depois, uma peça de Ibsen; a sinfônica no Municipal, o último filme de Almodóvar. Quando Camila percebeu, já eram mais do que simples colegas de trabalho.
Como não queria correr os mesmos riscos do outro noivado, Camila sondou, jogou verdes, espionou, revirou bolsos e gavetas, testou o namorado de todas as formas possíveis e imagináveis. Parece que  não havia como errar: o rapaz era atencioso, cortês, apaixonado e, o que era mais importante de tudo, fiel. Camila pensou em pedir a uma amiga que se insinuasse para ele, mas, felizmente, desistiu a tempo: "...assim já é demais", pensou.
Dessa vez não houve noivado. Marcaram a data e distribuíram os convites. As velhas tias nada disseram que lembrasse a euforia do primeiro noivado. Apenas uma delas perguntou baixinho, no ouvido de Camila: "Você tem certeza que está casando por amor, minha filha? Se não for, vai ser a pior coisa que já fez na vida".
O tempo voa quando se é feliz. Veio a primeira filha, depois mais uma menina. Seu antigo chefe no escritório, agora um marido apaixonado, mostrava-se sensível a tudo que a mulher desejava. Viagens, presentes, lembranças, novidades... Como nada na vida é perfeito, às vezes pensava por que não conseguia desfrutar com o homem que amava intensamente o prazer a dois que tanto desejavam, tal como sempre acontecia com o ...? Mas, para quem possui uma vida atribulada e repleta de atividades, não é difícil tirar essas coisas da cabeça.
  
Foi para sair um pouco da rotina que, na última sexta-feira de dezembro, quase Ano Novo, os dois resolveram esticar em uma luxuosa casa noturna recém-inaugurada. Beberam, dançaram, sorriram, se beijaram como dois namorados. A caminho do toillete, Camila sentiu uma leve pressão em seu ombro direito, voltou-se para ver o que era, lá estava ele, o cínico, o imoral, o atrevido do seu ex-noivo, aquele mesmo que a trocara pela ex-amiga nas vésperas do casamento, magoando-a como poucos homens conseguem magoar uma mulher. Reconheceu-o de imediato. Afastou-se rispidamente e por pouco, por muito pouco, não imita as grandes atrizes de Hollywood, desferindo naquela face asquerosa uma sonora bofetada. Para evitar o escândalo, apenas murmurou algumas ofensas e grosserias, terminando com a previsível pergunta: "Como é que você ainda tem a coragem de vir falar comigo?!"
O encontro morreu ali mesmo. Camila não disse nada ao marido, temendo as consequências. Escondeu como pôde os sinais de irritação, simulou um mal-estar e pediu para ir pra casa, no que foi prontamente atendida, como sempre.
No dia seguinte, um pouco antes do jantar, recebeu o telefonema de uma antiga colega da faculdade, que há tempos não via nem tinha notícias. Depois das perguntas rotineiras sobre a vida, o trabalho, a saúde, a família, etc., qual não foi sua surpresa ao ouvir a amiga perguntar: "E aí? Ele te procurou afinal?" Com toda certeza, "ele" era nada mais, nada menos do que o ex-noivo, o crápula que tivera a audácia de se dirigir a ela na noite anterior. Camila permaneceu em silêncio enquanto ouvia a amiga contar o quanto "ele" estava arrependido e sofrendo, como "ele" queria tanto se desculpar pelo erro que cometera, embora soubesse que não merecia o seu perdão. Pensou em desligar o telefone sem ao menos se despedir, mas antes que o fizesse ainda ouviu a outra dizer: "Ele voltará a te procurar. Se achar que deve, converse, ouça o que ele tem a dizer, não custa nada".
Era muita ousadia. Parecia um plano bem orquestrado para arruinar seu casamento, sua vida, e levá-la de volta aos tristes tempos de inércia e isolamento. Não podia contar a seus pais, não achava justo envolvê-los nesta nova sordidez; não se lembrava de  nenhuma amiga, íntima o bastante para desabafar. Seu marido? Qual seria a reação se soubesse de tudo? Resolveu permanecer calada, guardando para si a revolta, o ódio, a repulsa, sentimentos tão fortes que chegavam a apertar e a oprimir seu coração.    
Na terça, saiu para as compras e o encontrou do outro lado da rua. Decidiu que estava na hora de por um fim naquela triste história. Deu a ele o endereço de um restaurante no outro lado da cidade e pediu que a esperasse por volta das cinco da tarde.
Quando o encontrou, já estava decidida a escutar no mais absoluto silêncio tudo o que ele tinha a dizer, precisava manter o controle, antes de explodir e deixar que a raiva acumulada durante tanto tempo viesse à tona. No início, achou que não ia aguentar sem agredi-lo fisicamente, mas ouviu as desculpas, as explicações esfarrapadas, considerou que o sujeito era ainda mais sórdido do que parecia por insinuar que a maior parcela de culpa  cabia à ex-amiga de Camila, que o seduzira. Depois o canalha revelou que continuava sozinho e apaixonado por Camila, que seria para sempre a única mulher de sua vida. Contou que assistiu incógnito ao casamento, que descobriu onde ela morava, onde trabalhava, o carro que dirigia... Disse tudo isso e mais umas frases que Camila não ouviu. Em seguida, chorou na mesa do restaurante, àquela hora inteiramente vazio.
Camila nem por um momento sentiu pena do infeliz. Quando chegou sua vez de falar, foi calma, fria. Com a voz suave e segura  chamou o sujeito de crápula, covarde, mentiroso. Sem se alterar, disse tudo o que estava guardado há tanto tempo. Humilhou o ex-noivo, chegou a dizer que uma pessoa como ele, capaz de fazer o que fez, não merecia sequer continuar vivo e que por pouco ela não matara os dois naquele dia em que descobrira a traição, no que havia um fundo de verdade. Finalmente, exigiu que ele nunca mais a importunasse, que jamais aparecesse de novo na sua frente. Levantou-se para ir embora, mas nesse momento ele tocou seu rosto de leve e tentou passar a mão nos seus cabelos. Camila não pensou duas vezes e esbofeteou o canalha, com toda a força que a ira pode dar a alguém que durante anos rumina a vingança.
Contudo, não era a atriz hollywoodiana que encarnava, não era a vontade de agredir e humilhar ainda mais um pobre-coitado que rastejava arrependido, não era sequer o desejo incontrolável de externar todo seu ódio, pois este já tinha sido expresso em palavras duras, cruéis, infames. Era o que afinal?
Chegando em casa, Camila beijou as filhas, deu orientações à empregada para o jantar e foi tomar banho. Enquanto ensaboava o rosto para ver se tirava qualquer vestígio da mão daquele homem, Camila percebeu o quanto estava difícil, quase impossível se controlar. Chorou, soluçou, puxou seus próprios cabelos, chegou a socar os ajulejos do box. A água quente escorria sobre seu corpo. Fechou os olhos enquanto sentia um estranho desejo tomar conta de tudo. Abriu-se novamente para algo que há muito tempo andava esquecido. Não se conteve. Lá dentro dela, uma voz rouca, masculina, repetia baixinho: "Vagabunda, vagabunda..."

Naquela noite e nas subsequentes, Camila se entregou por completo ao marido. Beijou e foi inteiramente beijada, se contorceu na cama, gemeu, gritou uma, duas, várias vezes, cada vez com maior intensidade. Nunca na vida sentira tanto prazer com o ... homem que amava.
Era isso que queria? Foi isso que lhe ensinaram? E a voz lá dentro voltava a acusar. "Pouco importa", pensou. Camila jamais imaginara que a felicidade não pede licença para entrar. Sabia o que estava para acontecer, mais dia menos dia. Não se sentia culpada nem tinha do que se arrepender.


Alguns meses depois, enquanto Camila e o ex-marido brigavam na Justiça pela guarda das filhas, a velha tiazinha ainda comentou: "É no que dá casar sem amor". 

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