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sábado, 2 de janeiro de 2016

Testemunha

Fn

Eu, Raquel Maristela de Jesus, encontro-me neste momento sob os escombros de uma casa de dois andares e um sótão, que veio ao chão após o terremoto, ou a explosão, ou sei lá o que seja, pois só agora recobrei em parte a consciência.
Consciência, será que ainda a possuo? Ou o que restou foi apenas a memória? Tenho aqui comigo uma caneta esferográfica vermelha e uma pequena agenda, onde pretendo escrever meu nome, assinar com a minha assinatura e acusar o responsável pelo que aconteceu aqui. Por ora é o que preciso, além do ar que respiro, é claro, embora não saiba até quando irá durar.
A luz é fraca, entra por uma fresta no teto, ou o que sobrou dele. O terremoto, a explosão ou sei lá o quê, não sei quanto tempo durou, mas isso também não importa, sei que abriu uma cratera na minha cabeça, vamos dizer que uma nova vida se inaugura a partir do que aconteceu. Está acontecendo? Acha melhor?
Sempre quis descobrir o que uma pessoa como eu pensa quando está nas mãos de Deus, quando não pode fazer nada por si mesma. Juro que nunca me ocorreu uma situação como essa: a caneta de tinta cor de sangue, a agenda do ano passado e tantas lembranças.
Sinto até vergonha de falar, mas a primeira coisa que pensei ao me ver imóvel, caída no chão depois do estrondo, foi algo assim, bem rápido: "Pronto, o mundo acabou, eu morri, estou no inferno e tenho que pagar meus pecados".
No auge do meu delírio achei que o diabo em pessoa ia aparecer a qualquer momento pra me interrogar. Foi aí que abri a pasta caída no chão a meu lado, depois peguei a agenda e a caneta vermelha. Fiquei esperando o diabo chegar para colocarmos os pingos nos ii.
Não sei se é assim com todo mundo, mas acho que a pessoa que perde a consciência nunca a recobra de uma vez, as lembranças vêm aos poucos. E a verdade é que em momentos como esse duvido que algum de vocês se preocupe com lembranças. O que eu pensei, e que todo mundo deve pensar, foi no futuro, no futuro imediato, colado no presente, esse que a gente nem sabe se vai ter. A gente quer se agarrar a alguma esperança, tipo "acho que isso aqui não vai desabar. Tô ouvindo vozes, latidos, o socorro há de chegar a qualquer momento".
Terremoto não foi, não há por aqui, não havia. Pode ser um tiro de revólver de grosso calibre, fuzil? Me acertaram, só a mim? Caíram muito mais pessoas e coisas, não foi uma arma que alguém disparou junto aos meus ouvidos. Ouvi dizer que vinha chuva, dilúvio, pode ser? Me digam vocês que viram tudo aí de cima, porra...
Se for pra confessar começamos logo pelo mais grave de todos os pecados: fui eu, sim, Raquel Maristela de Jesus, quem enfiou a faca na barriga daquele filho da puta do Virgílio. Virgílio, ele mesmo, o vendedor de álibis, o semeador de DNAs, o assassino cruel, que muitos elogiavam a aparência e pouquíssimos o conheciam por dentro, não pensaria duas vezes antes de explodir a casa só por vingança.
"Por que, Raquel, você deixa o infame invadir sua cabeça quando mais precisa manter a lucidez?"
Não creia, nem de longe, que furei o canalha para punir o bandido,  isso pra mim não tem nada a ver, cada um faz o que quiser da sua vida. O que nunca perdoei foi Virgílio ter jogado as crianças contra mim, trazendo pra dentro de casa as mentiras e traições que ele aprendeu no mundo do crime. Merecia morrer? Não me cabe julgar se escapou da hemorragia pelas mãos de Deus ou se vendeu o que nunca teve para enganar o Diabo (estou falando da alma de Virgílio). Mas juro que não vou perder meus últimos minutos de vida falando nesse ...
Se tivesse que confessar alguma coisa importante de verdade teria que falar do Chefe, vamos deixar assim, sem mencionar o nome de ninguém para evitar riscos desnecessários. Quando eu falar do Chefe, vamos fingir que todos já sabem quem é, está bem?  
Engana-se quem acha que uma mulher não pode trair para salvar seu homem. Engana-se a mulher que acha que seu homem pode perdoá-la se a traição que praticou foi por motivo nobre, como este de salvar a família. Quando não há perdão, a culpa une-se à injustiça, e desse amálgama de sentimentos pode brotar o ódio, um ódio avassalador. 
Bem de longe chega aos meus ouvidos uma música que repete: "Que maravilha, que maravilha...", acredito que pode ser mesmo uma maravilha, se não tiver nenhum osso quebrado, principalmente os quadris, não sinto dor aguda, mas sabe lá... Preciso dizer que não estou na minha casa, não moro aqui, nunca morei, Deus me livre e guarde. O que é que eu faço debaixo desse entulho? Aí é que está, guardava uns documentos, talvez uns dólares, talvez não. Fui pega de surpresa e agora preciso pensar rápido para explicar o que estou fazendo aqui debaixo dessa casa demolida, isso quando as equipes chegarem aqui onde estou.
Se eu já gritei, se já pedi por socorro? Não, não gritei, não chorei, nem pedi socorro. A mulher que teve a coragem de furar Virgílio não pode demonstrar fraqueza, foi o que a vida me ensinou. Você tem que estar à altura dos seus inimigos. Enfrente os monstros, se não decepar a medusa, morra lutando, sem baixar os olhos.
Não sei se acontece com todo mundo em momentos decisivos, mas comigo está sendo assim, aquilo que eu penso chega de fora pra dentro na minha cabeça, um ruído, o som daquela música distante, lá dentro detona as lembranças. Correu um boato, antes da fatídica facada que quase matou Virgílio, algumas mulheres invejosas da minha posição diziam que eu teria agredido o infeliz e corrido atrás dele aos gritos de "Corno! Corno! Corno!", enquanto ainda era sua legítima esposa, mas foi apenas um boato que o povo inventa para pisotear quem já está a caminho da sarjeta.   
Como ninguém está livre da influência da televisão e de seus noticiários moralistas, logo um grupo de senhoras mal casadas tentou formar o "Viva Raquel", um movimento que pretendia acusar Virgílio e sua laia de forjar uma agressão com faca só para prejudicar a mim, sua abnegada esposa. Nem imaginam o trabalho que deu para agradecer às boas intenções, mas ao mesmo tempo pedir que parassem com o protesto, antes que o tiro saísse pela culatra. O lado cômico não podia faltar: a mulher do Chefe apareceu para saber se havia alguém nos ameaçando, sugeriu que os dois ex-maridos, o dela e o meu, poderiam estar tramando para me derrubar. 
No final, para todos os efeitos, ninguém furou a barriga de ninguém, não para os tiras, bem entendido. Derrubaram a casa em cima de mim e eu nem sei quem foi ou se foi de propósito. Pelo menos nisso eu era inocente. Inocente, estranha palavra. Uma vez Virgílio, não sei se falou inocente, mas a ideia era essa: "São negócios, Raquel, só negócios de gente inocente. No crime também é assim, ninguém é culpado de nada. Trabalhamos como qualquer pessoa comum, para conseguir o que desejamos, e você, por exemplo, sempre desejou muitas coisas, amor."
Será que tem alguém que duvida que o submundo é feito por gente desse mundo?

Água é o que primeiro falta, embora nem pense em me afogar, ficar aqui imóvel, debaixo de tábuas, tijolos quebrados, poeira sufocante, é bem melhor, acho eu. Depois da sede virá a fome, mas antes o medo, na hora em que a escuridão tomar conta de tudo, até da pequena fresta por onde ainda entra a luz amarelada.
A voz de uma jovem sem rosto e sem nome brota do fundo do meu cérebro: "Não seja louca de enfrentar Virgílio. Um dia, quando menos esperar, ele vai dar um jeito de derrubar tudo isso em cima de você, dona Raquel." Pode ser que a voz seja inventada? Pode ser uma simples alucinação provocada pela sede? Sabia que alguém ia perguntar isso, os advogados de Virgílio sempre usam esse argumento nos tribunais. Quem acusa não pode provar e está passando por um momento difícil em sua vida.

Os cães acharam alguém. Pararam de latir aqui perto. Sei que os homens do resgate se afastaram, o som das batidas, quase não escuto, vem de longe, muito longe. Penso que um juiz podia tomar agora meu depoimento, juro que diria: "Foi um acidente, doutor. O mundo desabou de repente. Ninguém tem culpa de nada."
Não sinto as pernas, não vejo a fresta por onde entrava aquele facho de luz, não tenho forças para pedir socorro e meu grito nem eu mesma escuto: "Virgílio, Virgílio..."

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