Sendo verdade o mesmo acima referido, assinam este termo circunstanciado:
Escrivão Isaías
Testemunhas: D'Oliveiros e Arnaldão
Jacarepaguá, 21 de fevereiro do ano da graça de dois mil e lá vai pedrada.
A carne anda fraca, mas linguiça tem pra todo mundo (no bom sentido...)
Para aumentar a degustação aqui na Almaminha, tô pensando em postar uns negócios mais populares, tipo "O cara do BBB comeu ou não comeu a guria que dormia ou só fingia?"
- I -
Ambiente em penumbra, semi-escuridão. Mão feminina acende a luz da cozinha. Atrás dela entra um homem, os dois falam ao mesmo tempo: "Ah, não..."
A mulher completa: "...Zildinha foi embora e deixou essa pilha de louça pra gente lavar?"
Homem: "Isso é que é diarista"
Mulher: "Só lembrando: Zildinha vem três vezes por semana, de acordo com decisão do Tribunal do Trabalho, deixou de ser diarista para ser empregada fixa"
Homem: "Isso é que é empregada fixa... Deixa que eu lavo esta merda"
Mulher: "Se não falar palavrão é melhor. Pode deixar que eu lavo"
Homem: "Merda não é mais palavrão, tá até no dicionário do Euzébio"
Mulher: "Que Euzébio, porra?! É Aurélio, Au ré lio!
Homem: "Tá vendo? Errei o nome de propósito pra mostrar que você também fala palavrão, todo mundo fala..."
Mulher: "Posso saber que palavrão que eu falei?"
Homem: "Falou 'porra' Ou porra não é mais palavrão?"
Mulher: "Você não falou que merda não é mais palavrão? Então, porra também não é"
Homem: "Essa é boa... Até parece que você não sabe a diferença entre a merda da louça e a porra da empregada"
Mulher: "Não chama Zildinha de porra, mas se quiser chamar a louça de merda pode chamar, foi presente da sua mãe"
Homem: "Ah, é? Fique sabendo que você tem uma porra de uma merda de empregada"
Mulher: "Não fala assim, vai que ela ouve e resolve ir embora? A gente táfu..."
Homem: "Táfu significa 'tá fodido', não é? Mais um pra sua coleção de nomes exóticos. Ninguém "táfu" porque a empregada não tá mais aqui. Deixou a louça pra gente lavar, lembra?"
Empregada entrando na cozinha: "Posso saber quem é que não tá mais aqui, seu Magalhães? Deixei tudo aí em cima da pia de propósito, só pra ver quem é que ia falar mal de mim"
Mulher: "Zildinha!!! Você viu que eu te defendi, não viu? Magalhães é que fica falando essas bobagens, liga não..."
Zildinha: "Defendeu, dona Doroty... Defendeu, sim, mas sem muita convicção. Acho que vou embora e deixar a louça de presente para os dois"
Magalhães: "Não faça isso, dona Zilda. Esquece, vai... Você sabe que Doroty tá com aquela dorzinha nas costas. Se for lavar a louça, grita a noite inteira"
Zildinha: "Eu já ouvi ela gritando, mas não foi de dor não, viu, seu Magalhães, conheço bem essas safadezas"
Doroty: "Quê isso, Zildinha? Olha o respeito, olha o respeito..."
Zildinha: "Desculpa, Dô. É que esse homem me provoca, me tira do sério"
Magalhães: "Só rindo, só rindo mesmo... Vou lá pra sala assistir ao programa político, hoje é o PLP"
Doroty: "Que PLP é esse, Magalhães?"
Magalhães: "Partido do Lava Pratos, bye-bye"
(Fim do primeiro quadro)
- II -
Doroty sentada no sofá da sala assiste a um programa da TV a cabo. Zildinha entra e pergunta:
Zildinha: "Dona Doroty, a senhora me empresta seu marido um pouquinho?
Doroty: "Claro, Zildinha... Pode levar. Péra aí, o que é que você quer com o Magalhães? Posso saber?
Zildinha: "Nossa, Dô... Né nada demais não. Só queria que ele trocasse uma lâmpada no quartinho dos fundos, eu não alcanço, mas seu Magalhães, aquele homão, dois metros de altura por um e cinquenta de largura...
Doroty: "Chega, chega, chega... Você tá quase babando, menina. Magalhães chegou da rua ainda há pouco e tá no banho. Quando ele sair, eu peço pra te procurar lá no quartinho, mas vê lá, hein... vê lá...
Corta para cena no quartinho dos fundos. Magalhães subiu num banquinho e tenta tirar a lâmpada queimada. Zildinha "ajuda" segurando as pernas do patrão.
Magalhães: "Zil, faz favor de tirar a mão daí... Tá me fazendo cócegas".
Zildinha: "Só tô querendo ajudar, segurando pra não cair. Vai que o senhor leva um escorregão..."
A mão de Zildinha sobe e Magalhẽs exclama:
Magalhães: "Tarada!"
Nesse momento, Doroty entra aparece na porta do quarto e pergunta:
Doroty: "Quem é tarada? Que história é essa?"
Magalhães: "Não é 'tarada', falei 'barata!!!"
Doroty: "Uuuuiiii... Barata? Onde, onde?"
Zildinha: "Calma, Dô... é barata no sentido de ganhar pouco, entendeu? Até seu Magalhães concorda que eu tô ganhando pouco mesmo e me prometeu um aumento, não foi?"
Zildinha belisca a coxa do patrão. Doroty reclama:
Doroty: "Tira a mão daí, Zildinha... Tá pensando que meu marido é bufet por quilo, que todo mundo pode dar uma beliscada?"
Magalhães dá uma sonora gargalhada, se desequilibra e cai do banquinho.
Zildinha: "Tá vendo... Enquanto eu segurava, a coisa tava firme, agora..."
(Continua, só não sei quando...)
Nas mãos de quem você está?
Caras, suaves,
amigas ou ásperas?
As que vão do câmbio ao volante?
Que puxam a cortina do palco em penumbra?
Ou na mão dos dedos violantes?
Em qual delas está você?
Isso, porque alguém rege o seu destino.
Senão você mesmo, alguém o manipula.
Acredita em Deus?
Crê na força maior?
Ou não há motivo?
Prefere a que escreve ou a que corrige?
A que desdenha ou amealha?
Nas mãos de quem descobriu suas mazelas?
Ou nas de quem lhe dá o troco,
atirando as moedas no balcão imundo?
Ou será que está nas mãos
daquela velha história suja
que você nem se lembra mais?
Nem pense em sorrir
como quem não sabe de nada.
Pergunte por aí
Nas mãos de quem estamos todos nós?
Fn
Abriu a gaveta das calcinhas e deu de cara com uma ratazana no meio da roupa. O bicho se assustou, tentou se esconder. Quando viu que não tinha saída, moveu os bigodes e sorriu para ela.
Estela fechou rapidamente a gaveta e se jogou na cama. Chorou, gritou por socorro, xingou o rato e a vida de tudo que é nome. Pouco depois já não sabia se aquilo tinha sido real ou se era apenas uma lembrança, cena de um antigo filme do cinema catástrofe.
Ficou um tempo deitada de bruços, agarrada ao travesseiro. Soluçava baixinho, mais pra mostrar ao improvável rato que tinha alguém ali com medo dele.
Atenta a cada ruído no quarto, Estela deixa que as lembranças passem diante de seus olhos arregalados. Só coisas boas, seleciona.
Lembra de quando ganhou o “Miss Peitinho Café Paris”, isso em mil novecentos e ... não faz tanto tempo assim.
Entregaram para ela uma garrafa gigante de champagne e ela fez como os pilotos no podium.
Depois foram jantar. Um corretor da bolsa pagou tudo. Estela deixou, deixava sempre.
Alguns anos mais tarde, numa noite fria, um dos membros do júri veio visitá-la. Conversaram, tomaram café, o quarto não era esse, nem de longe.
O sujeito era parecido com o tal corretor da bolsa de valores. Enquanto conversavam, olhava com insistência para a blusa de Estela.
Não aguentou e pediu para ver novamente os grandes vencedores do mais famoso “Miss Peitinho” de todos os tempos.
Estela não se sentiu ofendida, nem um pouco. Abriu a blusa.
O sujeito olhou, tinha um palito de fósforo no canto da boca – isso Estela jamais esqueceria.
O corretor não reagiu com piedade, mas com um certo fastio e disse: “São como as ações da bolsa. Um dia, acabam caindo...”
Já estava de costas, segurando a maçaneta da porta, quando Estela perguntou: “E a tua mulher? Aquela tal de Vanda ou Dalva, nem me lembro mais... Aquela, que todo mundo dizia que nem bunda tinha.”
Nem teve tempo de sorrir. Até parece que o corretor adivinhara a pergunta. Virou o rosto um pouco antes, cuspiu o palito e respondeu: “Morreu, se matou...”
Se matar, é o que Estela quer.
Não é mística nem nada, mas tem certas coisas que só acontecem com a mão de Deus. Ouve um ruído, alguém enfia um panfleto por baixo da porta. Estela se abaixa e pega, parece mentira:
PULGAS, BARATAS, RATOS E OUTROS INCETOS?
VENENO TIRO E QUEDA
50% DE DESCONTO NA APRESENTAÇÃO DESTE.
Estela abre a porta, disposta a esclarecer que rato não é inseto. Lá está o ex-corretor com seu paletó surrado, o olhar triste na direção do quarto, que agora é este.
“Para algumas coisas na vida, esse tipo de homem ainda vale alguma coisa”, pensa Estela. Ratos e solidão?
Não quer dar o braço a torcer. Olha o sujeito de alto a baixo e diz:
“Você de novo, Petrarca? Entra...”
ADVERTÊNCIA 2: Como tenho recebido inúmeras críticas e descomposturas pelo texto abaixo, vou logo avisando aos distintos leitores e visitantes: o que não falta nesse "Teatral" é pornografia. A própria ideia é pornográfica (faturar a cultura). Portanto, se não gosta, nem comece a ler. Mais abaixo tem outros que talvez você goste. Obrigado pela visita. Volte sempre.
O palco está às escuras, ainda com as cortinas cerradas. Nota-se um certo movimento, ruídos de copos, passos e cadeiras arrastadas. Plateia em penunbra.
(Voz feminina):
- Ai, ai, ai... Alguém comeu minha bocetinha ontem.
(Na plateia, lá no fundo, um figurante puxa a gargalhada, logo seguido por outras pessoas)
(No palco, a mesma voz feminina pergunta indignada, depois que os risos cessaram):
- Foi você, Toni?
(Voz masculina também no palco às escuras):
- Eu?! Eu, não... Comi alguma ontem, mas não foi a sua.
(Voz feminina):
- É pra isso que a gente casa? Pra ter um marido que come uma vagabunda qualquer enquanto deixa a própria esposa ser comida por... sei lá quem. Foi você, Gian?
(Outra voz masculina responde):
- Eu não comi ninguém... Quer dizer, não que eu me lembre.
(Novamente o figurante puxa outra gargalhada. Nisso abre-se a cortina, com o palco precariamente iluminado. Percebe-se que é um ensaio de uma peça, com atores e atrizes ainda segurando folhas de papel com suas falas. Ouve-se a voz do diretor, que vem de um megafone):
- Patrícia, você precisa mudar o tom de voz. Tem que ser um pouco mais exaltada, indignada. Lembre-se que você foi comida e não sabe quem foi o cara. No mínimo, não pode dar uma de boazinha, por mais que você queira.
(Voz feminina, que agora sabe-se ser de Patrícia, dialoga com diretor):
- Tá certo. Quer repetir a cena?
(Diretor em Off):
- Não. Deixa pra depois. Vamos em frente. Procure dar mais emoção à personagem.
(Patrícia, erguendo a voz):
- Só pode ter sido você, Daniel... Eu sabia, devia saber. Por que não fodeu a vagabunda da Celinha? Não é ela que é tua namorada?
(Celinha levanta-se vai na direção de Patricia):
- Vagabunda é você, que dorme sem calcinha, esperando que venham te comer. Olha só, tá até agora sem nada...
(Celinha tenta levantar a saia de Patrícia, que se esquiva. Nesse momento o palco se ilumina, mostrando uma sala desarrumada, mas com móveis e objetos de decoração luxuosos. Foco em Patrícia, que diz):
- É pecado agora andar à vontade dentro da própria casa? Não sabia... Foi você ou não foi, Dan?
(Daniel mexe-se no sofá, no canto oposto ao de Patrícia. Levanta, boceja e diz):
- Eu o quê, Pat?
(Patrícia, indignada):
- Quantas vezes vou ter que perguntar: alguém comeu minha bocetinha ontem, foi você?
(Celinha grita):
- Não responde, amor... É armação dela.
(Daniel):
- Sei lá se fui eu, Pat... Pode rer sido, mas que importância tem isso agora? Você dá pra todo mundo mesmo...
(Celinha):
- Não responde, Dan, não responde. Ela deve estar grávida e vai dizer que o pai é você. Eu conheço essa vadia.
(Daniel):
- Péra aí... Não tô entendendo nada. Como é que alguém pode ficar grávida da noite pro dia?
(Celinha):
- Não é isso, seu burro! Desculpe, Dan... Não quis ser grosseira. Ela já estava grávida antes de você fodê-la, entendeu?
(Patricia):
- Hãhã... Foi o Dan mesmo, não foi, dona Celinha? Na certa foi você quem mandou. Deve ter dito: “Vai lá, Dan... Come a vagabunda que ela tá querendo.
(Fred):
- E eu só queria saber que caralho é esse de todo mundo sair falando porra de palavrão pra tudo que é lado, puta-que-o-pariu... Tá parecendo peça de filho-da-puta que não sabe merda nenhuma a não ser falar pornografia.
(Diretor entra em cena):
- Não é assim com essa moleza, caralho! Fred, você está puto da vida com a babaquice da pornografia barata, entendeu, seu porra?
(Diretor, virando-se na direção de Patrícia e Celinha):
- Pat, quer fazer o favor de calar a boca... Já falei que não é pra ficar conversando no meio do ensaio, ainda mais com a Celinha que é sua inimiga na peça, assim não dá, cacete...
(Celinha):
- Calma, Di... é só o ensaio, na hora vai dar tudo certo. Vamo lá, vamo lá...
(Diretor):
- Quê que é isso agora?! É você que tá dirigindo?
(Celinha):
- Poxa, Di... Só queria ajudar, você reclama de tudo
(Diretor)
- Tô no meu papel, diretor é assim mesmo, tem que reclamar, berrar, dar porrada. Quer ver? Pat, da próxima vez que você ficar com vergonha de falar na bocetinha, eu arranco a tua roupa e como o teu cuzinho aqui mesmo!
(Patrícia, finge que está fazendo beicinho):
- Por isso que eu não queria ensaiar essa peça. Sabia que ele ia acabar confundindo as coisas e me tratando como uma putinha qualquer.
(Celinha):
- E você o que é, Patrícia? Além de uma putinha vagabunda...?
(Fred):
- Pronto, voltamos à vaca fria
(Daniel):
- Se você diz que é fria é porque não comeu, Pat é um tesão, cara.
(Risos)
(Patrícia):
- Não falei? Sabia que tinha sido você, Dan.
(Daniel):
- Eu o quê?!
(Patrícia):
- Você que comeu minha bocetinha ontem, sabia que...
(Diretor)
- Para, porra... Para! Pat, você ficou vermelha de novo quando falou bocetinha, pode uma coisa dessas?
(Celinha):
- Esquece, Di... Quê que tem? Deixa pra lá, se ela tem vergonha, problema dela
(Diretor):
- Problema dela é o caralho, porra...
(Fred, baixinho em aparte para a platéia):
- Olha a vaca fria aí de novo
(Diretor):
- Pat, vem cá... Olha bem nos meus olhos e fala
(Patrícia):
- Fala o que?
(Diretor):
- Bocetinha, fala: bo ce ti nha.
(Patrícia, imitando os gestos do diretor):
- Bo ce ti nha
(Diretor):
- Isso, agora fala de uma vez só, bem rápido
(Patrícia, fala rapidamente):
- Bocetinha
(Diretor):
- Pronto, ficou vermelha novamente, mas não é possível. Vou acabar tirando a tua bocetinha da peça
(Celinha):
- Péra aí, péra aí... A peça não é pra descobrir quem comeu a bocetinha da Pat? Se você tirar a bocetinha dela, acaba a peça, caralho.
(Diretor):
- Tem razão. Pat, fica vermelha, fica roxa, fica do jeito que você quiser.
(Diretor, olhando para Patrícia):
- O que foi agora? Tá chorando por quê?
(Gian):
- Você magoou ela, cara. Patrícia é uma menina sensível. E as meninas sensíveis choram, ficam vermelhas... entendeu?
(Diretor, resmungando):
- Era só que me faltava, aqui só tem amador...
(Fred para o diretor):
- E você é o quê? O Francis Ford Cupolla por acaso?
(Patrícia):
- Não é Cupolla, Fred... É Copolla. Deixa o "Cu" fora da peça
(Diretor):
- Sabe que você me deu uma idéia genial, Pat? Em vez de comerem a tua bocetinha, alguém vai comer o teu cuzinho, ah vai...
(Diretor bate palmas e fala para o elenco):
- Ensaiando, ensaiando... vamos voltar à noite em que Gian e Toni chegam bêbados e abraçados. Pat vai se deitar lá naquele canto do palco...
(Patrícia):
- Para, pode parar... Eu falo bocetinha sem ficar vermelha, a verdadeira atriz sabe se controlar, quer ver? "Bocetinha". Pronto, falei...
(O elenco inteiro aplaude a atriz. O diretor se aproxima, beija e abraça Patrícia)
(Depois de algum tempo, Celinha diz):
- Chega, Di... Você já foi longe demais com isso. Até as poltronas do teatro sabem que essa merda de peça só existe pra você faturar a Pat, só ela que ainda não percebeu. Você não vai fazer nada Toni? Vai ficar calado vendo o diretor agarrar tua mulher?
(Toni):
- Porra, Celinha... Você pirou? Pat só é minha mulher na peça, se o diretor quiser comê-la na real, pra mim tanto faz...
(Patrícia):
- Já sei, descobri!
(Patrícia para o diretor):
- Foi você não foi, Di? Fiquei sabendo pela pegada... senti.
(Celinha)
- Vagabundo... Era isso que você queria, desde o início, comer a protagonista.
(Diretor)
- Cala a boca, Celinha... Vem cá, Pat, deita aqui no sofá. Se solta, menina...
(Celinha aponta para os dois):
- Não falei? Olha lá...Tá até agora sem nada por baixo, a vadia.
(Fred):
- Todo esse carnaval pra comer uma putinha que dá pra todo mundo. Querem ver?
(Fred apontando para a plateia):
- Algum de vocês aí quer vir comer a Pat? Sobe aqui, vem...
(Alguns figurantes sobem da plateia para o palco. Cai o pano)
(Voz de Fred, lamentando):
- Agora é que a vaca foi pro brejo... Adeus patrocínio, adeus incentivo à cultura, Lei Rouanet é o caralho... O pau vai comer, no mau sentido.
(Fn)
OBS. Como era de se esperar, as críticas ao texto acima são ácidas, desestimulantes, algumas indignadas. Contudo recebo-as de bom grado, como a qualquer elogio. Amante incondicional da liberdade, sobretudo a de expressão, tentei habilitar novamente os comentários, mas até agora não consegui. Por enquanto, aguardo porradas e porretadas by mail, pode ser?
Massimo abriu a janela e deixou entrar em ondas as cores do cartaz luminoso. Piscavam as imagens, arregalava os olhos: era pra ser uma propaganda de cigarro, ou de whisky, mas não o de sua marca.
No edifício em frente alguém fez um movimento semelhante: abriu a cortina, ou ergueu a persiana, pôs a cara pra fora da janela... Era ela: Júlia.
M. segurava o copo enquanto J. acendia o cigarro. Ficaram por ali fumando e bebericando, a rua estreita, os edifícios quase colados, as janelas se entreolhavam. À noite, na cidade suja e decadente, a escuridão nunca era plena.
Massimo viu alguém chegar por trás da mulher que fumava. Os braços a enlaçaram. De onde Massimo estava, só podia ver o rosto de Júlia, seus peitos pequeninos debaixo da blusinha azul e as mãos do homem os enconchando. J. parecia gostar. M. não viu se ela ria, mas imaginou que rir talvez não fosse a melhor reação para o momento.
Mascou, murmurou, tossiu...Disse, até que bem alto: “Vagabunda...” Nessa hora, não por raiva ou frustração, mais por desejo.
Queria estar no lugar do homem que apertava Júlia? Queria, muito mais, apertar alguma coisa em direção ao homem que prendia Júlia.
Deu três passos para trás e saiu do pequeno campo de luz que invadia o quarto. Enfiou o olho esquerdo na mira a laser, lente infravermelho, e lá estava ela: J. em transe, a mão do homem por baixo da blusinha azul transparente. Viu quando o cara mordiscou a nuca de Júlia, levantou os longos fios de uma densa e ondulada cabeleira, apertou de leve seu pescoço, como se estivesse fazendo uma simples massagem, depois beijou, passou os lábios, fungou, esfregou o queixo... Lente de alta definição, dava pra ver, na cara do porco, os pelos de uma leve barba por fazer. Sentiu J. arrepiar-se toda, até a alma.
O gatilho roçou no dedo de Massimo. Naquela hora, algo o segurou. Quem sabe, o prazer de Júlia, o desejo ardente do homem que a abraçava...
O que faz um sujeito alugar um quarto minúsculo bem em frente ao apartamento da mulher que o trocou por outro? Na lógica de Massimo certas coisas não devem ser respondidas, pura e simplesmente. Pensa ele que todos os crimes que porventura venha a praticar já foram muito bem pagos com a prisão injusta, longos meses na cela imunda, até provar que não tinha intenção de matar ninguém, sequer pensou em atirar. Foi por falta de provas que ele saiu livre, sorrindo para o promotor e repetindo mil vezes: “a arma disparou acidentalmente, acertou a puta de raspão...” A mesma puta que agora o provoca na janela em frente. Excelente advogado aquele.
O que faz um homem como Massimo se julgar no direito de julgar-se a si mesmo e dar quitação a um crime que irá cometer mais dia menos dia? Nada o atrai tanto na vida como apertar o gatilho, talvez só o calor de Júlia, ardendo no próprio corpo recém-ensanguentado. E uma coisa é consequência da outra: o gatilho neste lado da rua; o riacho de sangue no assoalho do apartamento em frente.
O amante de Júlia, o canalha que em breve irá morrer por ter ajudado J. a se vingar de M., agora desabotoa a camisa e encosta nela o peito nu. Estão os dois agarrados à mesma sofreguidão. Ele arranca a blusa de Júlia e a puxa para o interior do quarto semiescuro. Massimo pensa que o homem não pretende se esconder, muito menos proteger-se de olhares indiscretos. Talvez apenas procure a cama ou o chão frio, para fornicar com a mulher que Massimo sempre amou.
No cartaz, a luz que emana do copo é amarela; a fumaça do cigarro é azulada. “Tem cor de lâmpada de geladeira velha”, Massimo pensa.
Agarrados, voltam à janela. Agora sim Júlia está inteiramente despida e o sujeito a possui por trás. Os peitos de Júlia balançam para quem quiser ver. Massimo enxerga no rosto de J. o desespero do prazer. De seus lábios brotam doces ofensas, tão familiares: “Animal... animal...”
Júlia verga seu corpo, encosta o tórax no parapeito da janela. O homem enfia as unhas nas costas de J. Ela grita. Massimo não acredita na dor que deve estar sentindo.
Júlia se desvencilha. O homem agarra com força seus cabelos negros, empurra a cabeça para baixo, obriga J. a ficar de joelhos na sua frente. Massimo não vê senão a cara em êxtase do amante de sua amante.
Depois é a vez do homem se ajoelhar na frente de J., que levanta a perna esquerda até a altura da janela. M. imagina que é nele, Massimo, que ela pensa. São os mesmos lábios crispados, os mesmos olhos perdidos, o mesmo gozo que tantas vezes alcançou a seu lado.
Massimo acha que os dois estão nus, trepando na frente da janela só para o provocar. É ele que Júlia quer, ninguém duvide.
Depois desaparecem. Massimo sabe que estão deitados no chão, se esfregando, se unhando, se mordendo... um sorvendo a entrega da outra. “Como dois gambás imundos...”, ele diz baixinho.
Nos ouvidos de Massimo entram as risadas da cela e a pergunta: “Pode um homem morrer de ciúmes por uma mulher que nunca o amou?”
"É uma puta? Quem mandou se apaixonar?”, ouve uma voz, idêntica à sua, martelando seus ouvidos.
Apenas uma bala deverá vazar o corpo de J. e atingir o amante que a envolve. O impacto é tão forte que os dois se estilhaçam na parede ao fundo do quarto. O dedo abandona o gatilho. O nariz de Massimo, peixe fora d’água, sai à procura de um ar que não é dele, oxigênio podre, como qualquer fumaça a sair de copos e canos.
fn
... quando comecei a ouvir os tiros,
um em cima do outro,
rá-tá-tá-tá, parecia tambor de ursinho de brinquedo.
Depois, o pensamento tão longe...
que eu nem sei aonde ele foi com essa tristeza.
Acredito no amor depois do sexo ou, caso raro, que os dois surjam ao mesmo tempo. Só não creio no sexo depois do amor. O resultado ficará sempre abaixo do que idealizamos.
Fn
Acordar com o pé esquerdo
morder a isca da manhã
assim como quem não quer nada
cair na armadilha da rotina
que implica em não revelar
o outro lado do lado B
que não é o A.
Escrever ao contrário
esperar que venham me contar
quantos foram hoje
demitidos da vida
por causas naturais
esperar, torcer, rezar
para que não me apareçam
com o dvd de lançamento do blu-ray
ou as novas sensações
um blu-ray apresentando o 3D
e as TVs com odores vários
gente sem tato
o cheiro de pizza inebria
os famintos no outro lado da vitrine
que não é a rua.
Julgar quem me lê
nas entrelinhas
a faca em ponta de murro
suprassumo em goles fartos
e ainda por cima
correr atrás de uma rima
uma só é o que interessa
só me faltava essa.
A lua contudo
vista por quem faz de cama a crosta terrestre
anda amassada e baldia
mas é a fase.
Um sujeito, bandido da pior espécie, sequestra uma jovem e a mantém prisioneira, em cárcere privado, por anos e anos. Um dia, a garota foge e denuncia o sequestro. O bandido então se mata, com um tiro de revólver em sua estúpida cabeça.
Ninguém de boa fé pode se sentir satisfeito com o desfecho do crime (está na moda em nossos loucos dias). Na verdade, todos nós concordamos que a pena deveria ter sido muito maior do que a morte imediata, quase indolor. É ai que alguns introduzem não só a ideia de um deus todo poderoso, que fará a verdadeira justiça, como também imaginam um céu e um inferno, para premiar os bons e castigar os maus, tudo isso depois da morte, é claro.
Verdadeiro ou falso?
Há controvérsias. Por enquanto só dá pra concluir que não se deve confiar em nenhum deus, de qualquer religião, para evitar desgraças no mundo dos vivos.
Verdade que não são poucos os que se afastam do crime muito mais por temer a ira divina do que a lei dos homens. Por quê?
Uma parte da resposta é a própria justiça quem dá. A nossa, aqui no Brasilbrasileiro, tarda e aceita recursos e filigranas jurídicas de toda ordem. Condena inocentes, absolve culpados, protege seus pares. Diante de tanta ignomínia, a maioria talvez tenha razão em concluir: “melhor entregar pra deus...” Se houver um, duvido que concorde em aceitar a missão.
Fn
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