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Churrascaria AlmaminhadeAlcatra

A carne anda fraca, mas linguiça tem pra todo mundo (no bom sentido...)

domingo, 19 de fevereiro de 2012

Termo Circunstanciado de Abertura


Declaro para os devidos fins que, aos vinte e um dias do corrente mês,   Margarita Detall, soi-disant solteira,  vinte e poucos anos, muito embora tenha lá suas rugas e pés-de-galinha, de profissão manequim vivo, atualmente desempregada, fazendo uns bicos em vitrines de shopping centers, compareceu em trajes menores e com a maquiagem borrada, perante este escrivão e seus adjuntos, para lavrar um auto de queixa circunstanciada contra o chefe dos seguranças do estabelecimento, onde segundo ela teria sofrido assédio após o término de suas atividades vitrinescas, tendo sido levada ou conduzida à força para a área de recicláveis, tratada de maneira indelicada e grotesca, tendo inclusive o citado indivíduo atado à boca da queixante fita gomada de grossa espessura, para que não ouvissem seus gritos e lamúrias enquanto arrancavam suas vestes, que, diga-se de passagem, pertencem à loja para a qual a srta. Detall, Margarita presta serviços como manequim vivo, portanto vem ela reclamar o ressarcimento do prejuízo causado pelo tal segurança de nome incerto, cuja imagem deve ser identificada nas fitas internas do estabelecimento comercial. Outrossim, informada de que o presente depoimento não fora prestado em delegacia distrital ou cartório, mas sim na recepção de um CIPAM, a reclamante quis de pronto saber o que vinha a ser a sigla CIPAM e após ser informada de que se tratava de um Centro de Internamento Provisório de Alienados Mentais, pôs-se então a proferir palavras de ofensa à instituição e aos internos que prontamente a atenderam, após o que dominada e levada para a seção de sedativos, ainda em trajes menores adormeceu como um anjo.

Sendo verdade o mesmo acima referido, assinam este termo circunstanciado:
Escrivão Isaías
Testemunhas: D'Oliveiros e Arnaldão

 Jacarepaguá, 21 de fevereiro do ano da graça de dois mil e lá vai pedrada.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

A vida anda cheia demais de futuro.

Eis a razão de tanta infelicidade.

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

PROMOÇÃO: CHURRASCO GREGO A PESO DE EURO

Para aumentar a degustação aqui na Almaminha, tô pensando em postar uns negócios mais populares, tipo "O cara do BBB comeu ou não comeu a guria que dormia ou só fingia?"

Envie seu voto para o Ministério Público, com cópia para:


imagem from bootlead.blogspot.com

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Gigolô das Letras




"Entre tantas multimídias mãos,
cinzelando imagens, bolinando rimas,
lá está ela,
minha torpe mentirosa mente,
da palavra, doce cafetina."

Fn

Entrou cantando I'm singing in the rain, alto pra caralho, isso apesar de não chover faz uns dois meses nessa esturricada terra, parece que era de propósito. Pedi pra ela cantar mais baixo e ouvi de volta um O QUÊ?, mais alto do que o barulho da chuva que devia cair na sua cabeça. Berrei eu, nada, nada... deixa. Deixa o quê, homi? Vê lá, hein... Mulherzinha foda aquela, mas caiu na gargalhada, só pra descontrair, não sei que graça ela viu naquilo.
Fiquei pensando que mal fiz eu à humanidade pra ter que passar o sábado ao lado dessa maluca, ladra ainda por cima, adora roubar pequenas coisas, lembrancinhas, como o copo de plástico com o escudo da estrela solitária, onde guardava eu a pasta e a escova de dentes, sumiu também com o porta-guardanapo de prata que minha avó me deixou de herança, valor sentimental, que mal fiz eu, gritava mentalmente, sem obter resposta, é claro.

O telefone tocou uma, duas, três... um caralhão de vezes. Quando fui atender a linha tinha caído e eu, é claro, berrei um putaquepariu que paralizou a feira, que paralizava a rua onde ficava o prédio em que eu morava. Uma voz inconfundível me repreendeu do outro lado da linha que não tinha caído porra nenhuma: Olha o palavrão, olha o palavrão... Era ela: Só tô ligando pra avisar que não vou hoje, tá? Tô com visitas, uns primos, umas tias, vou deixar de arrumar a sua casa pra cuidar da minha, falou? Até sábado, e bateu o telefone na minha cara mal-acordada, fiquei meditando quem é que na casa dela assobiava At last my love's come along, provavelmente na interpretação de Etta James, gente metida. Me arrumei e fui comprar tomate na banca logo em frente à garagem do edifício, não sem antes lastimar o que é que eu faço agora sem ninguém pra aporrinhar minha vida neste sábado frio e chuvoso, nem uma ladrazinha de coisas insignificantes, ahn...?

Ilustração: englishjames.de

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Cotidiano, coitado...


-  I  -


Ambiente em penumbra, semi-escuridão. Mão feminina acende a luz da cozinha. Atrás dela entra um homem, os dois falam ao mesmo tempo: "Ah, não..."


A mulher completa: "...Zildinha foi embora e deixou essa pilha de louça pra gente lavar?"


Homem: "Isso é que é diarista"


Mulher: "Só lembrando: Zildinha vem três vezes por semana, de acordo com decisão do Tribunal do Trabalho, deixou de ser diarista para ser empregada fixa"


Homem: "Isso é que é empregada fixa... Deixa que eu lavo esta merda"


Mulher: "Se não falar palavrão é melhor. Pode deixar que eu lavo"


Homem: "Merda não é mais palavrão, tá até no dicionário do Euzébio"


Mulher: "Que Euzébio, porra?! É Aurélio, Au ré lio! 


Homem: "Tá vendo? Errei o nome de propósito pra mostrar que você também fala palavrão, todo mundo fala..."


Mulher: "Posso saber que palavrão que eu falei?"


Homem: "Falou 'porra' Ou porra não é mais palavrão?"


Mulher: "Você não falou que merda não é mais palavrão? Então, porra também não é"


Homem: "Essa é boa... Até parece que você não sabe a diferença entre a merda da louça e a porra da empregada"


Mulher: "Não chama Zildinha de porra, mas se quiser chamar a louça de merda pode chamar, foi presente da sua mãe"


Homem: "Ah, é? Fique sabendo que você tem uma porra de uma merda de empregada"


Mulher: "Não fala assim, vai que ela ouve e resolve ir embora? A gente táfu..."


Homem: "Táfu significa 'tá fodido', não é? Mais um pra sua coleção de nomes exóticos. Ninguém "táfu" porque a empregada não tá mais aqui. Deixou a louça pra gente lavar, lembra?"


Empregada entrando na cozinha: "Posso saber quem é que não tá mais aqui, seu Magalhães? Deixei tudo aí em cima da pia de propósito, só pra ver quem é que ia falar mal de mim"


Mulher: "Zildinha!!! Você viu que eu te defendi, não viu? Magalhães é que fica falando essas bobagens, liga não..."


Zildinha: "Defendeu, dona Doroty... Defendeu, sim, mas sem muita convicção. Acho que vou embora e deixar a louça de presente para os dois"


Magalhães: "Não faça isso, dona Zilda. Esquece, vai... Você sabe que Doroty tá com aquela dorzinha nas costas. Se for lavar a louça, grita a noite inteira"


Zildinha: "Eu já ouvi ela gritando, mas não foi de dor não, viu, seu Magalhães, conheço bem essas safadezas"


Doroty: "Quê isso, Zildinha? Olha o respeito, olha o respeito..."


Zildinha: "Desculpa, Dô. É que esse homem me provoca, me tira do sério"


Magalhães: "Só rindo, só rindo mesmo... Vou lá pra sala assistir ao programa político, hoje é o PLP"


Doroty: "Que PLP é esse, Magalhães?"


Magalhães: "Partido do Lava Pratos, bye-bye"


(Fim do primeiro quadro)


-  II  -


Doroty sentada no sofá da sala assiste a um programa da TV a cabo. Zildinha entra e pergunta:


Zildinha: "Dona Doroty, a senhora me empresta seu marido um pouquinho?


Doroty: "Claro, Zildinha... Pode levar. Péra aí, o que é que você quer com o Magalhães? Posso saber?


Zildinha: "Nossa, Dô... Né nada demais não. Só queria que ele trocasse uma lâmpada no quartinho dos fundos, eu não alcanço, mas seu Magalhães, aquele homão, dois metros de altura por um e cinquenta de largura...


Doroty: "Chega, chega, chega... Você tá quase babando, menina. Magalhães chegou da rua ainda há pouco e tá no banho. Quando ele sair, eu peço pra te procurar lá no quartinho, mas vê lá, hein... vê lá...


Corta para cena no quartinho dos fundos. Magalhães subiu num banquinho e tenta tirar a lâmpada queimada. Zildinha "ajuda" segurando as pernas do patrão.


Magalhães: "Zil, faz favor de tirar a mão daí... Tá me fazendo cócegas".


Zildinha: "Só tô querendo ajudar, segurando pra não cair. Vai que o senhor leva um escorregão..."


A mão de Zildinha sobe e Magalhẽs exclama:


Magalhães: "Tarada!"


Nesse momento, Doroty entra aparece na porta do quarto e pergunta:


Doroty: "Quem é tarada? Que história é essa?"


Magalhães: "Não é 'tarada', falei 'barata!!!"


Doroty: "Uuuuiiii... Barata? Onde, onde?"


Zildinha: "Calma, Dô... é barata no sentido de ganhar pouco, entendeu? Até seu Magalhães concorda que eu tô ganhando pouco mesmo e me prometeu um aumento, não foi?"


Zildinha belisca a coxa do patrão. Doroty reclama:


Doroty: "Tira a mão daí, Zildinha... Tá pensando que meu marido é bufet por quilo, que todo mundo pode dar uma beliscada?"


Magalhães dá uma sonora gargalhada, se desequilibra e cai do banquinho.


Zildinha: "Tá vendo... Enquanto eu segurava, a coisa tava firme, agora..."


(Continua, só não sei quando...)


terça-feira, 4 de outubro de 2011

Azul Turquesa


Nas mãos de quem você está?
Caras, suaves,
amigas ou ásperas?
As que vão do câmbio ao volante?
Que puxam a cortina do palco em penumbra?
Ou na mão dos dedos violantes?
Em qual delas está você?


Isso, porque alguém rege o seu destino.
Senão você mesmo, alguém o manipula.
Acredita em Deus? 
Crê na força maior?
Ou não há motivo?
Prefere a que escreve ou a que corrige?
A que desdenha ou amealha?
Nas mãos de quem descobriu suas mazelas?
Ou nas de quem lhe dá o troco,
atirando as moedas no balcão imundo?


Ou será que está nas mãos 
daquela velha história suja
que você nem se lembra mais?
Nem pense em sorrir
como quem não sabe de nada.
Pergunte por aí
Nas mãos de quem estamos todos nós?

terça-feira, 30 de agosto de 2011

Rattus Norvegicus

Fn


Abriu a gaveta das calcinhas e deu de cara com uma ratazana no meio da roupa. O bicho se assustou, tentou se esconder. Quando viu que não tinha saída, moveu os bigodes e sorriu para ela. 
Estela fechou rapidamente a gaveta e se jogou na cama. Chorou, gritou por socorro, xingou o rato e a vida de tudo que é nome. Pouco depois já não sabia se aquilo tinha sido real ou se era apenas uma lembrança, cena de um antigo filme do cinema catástrofe. 
Ficou um tempo deitada de bruços, agarrada ao travesseiro. Soluçava baixinho, mais pra mostrar ao improvável rato que tinha alguém ali com medo dele.
Atenta a cada ruído no quarto, Estela deixa que as lembranças passem diante de seus olhos arregalados. Só coisas boas, seleciona.
Lembra de quando ganhou o “Miss Peitinho Café Paris”, isso em mil novecentos e ... não faz tanto tempo assim. 
Entregaram para ela uma garrafa gigante de champagne e ela fez como os pilotos no podium.
Depois foram jantar. Um corretor da bolsa pagou tudo. Estela deixou, deixava sempre.

Alguns anos mais tarde, numa noite fria, um dos membros do júri veio visitá-la. Conversaram, tomaram café, o quarto não era esse, nem de longe.
O sujeito era parecido com o tal corretor da bolsa de valores. Enquanto conversavam, olhava com insistência para a blusa de Estela.
Não aguentou e pediu para ver novamente os grandes vencedores do mais famoso “Miss Peitinho” de todos os tempos.
Estela não se sentiu ofendida, nem um pouco. Abriu a blusa.
O sujeito olhou, tinha um palito de fósforo no canto da boca – isso Estela jamais esqueceria. 
O corretor não reagiu com piedade, mas com um certo fastio e disse: “São como as ações da bolsa. Um dia, acabam caindo...”
Já estava de costas, segurando a maçaneta da porta, quando Estela perguntou: “E a tua mulher? Aquela tal de Vanda ou Dalva, nem me lembro mais...  Aquela, que todo mundo dizia que nem bunda tinha.”
Nem teve tempo de sorrir. Até parece que o corretor adivinhara a pergunta. Virou o rosto um pouco antes, cuspiu o palito e respondeu: “Morreu, se matou...”

Se matar, é o que Estela quer. 


Não é mística nem nada, mas tem certas coisas que só acontecem com a mão de Deus. Ouve um ruído, alguém enfia um panfleto por baixo da porta. Estela se abaixa e pega, parece mentira:



          PULGAS, BARATAS, RATOS E OUTROS INCETOS?
                           VENENO TIRO E QUEDA
                    50% DE DESCONTO NA APRESENTAÇÃO DESTE.




Estela abre a porta, disposta a esclarecer que rato não é inseto. Lá está o ex-corretor com seu paletó surrado, o olhar triste na direção do quarto, que agora é este.
“Para algumas coisas na vida, esse tipo de homem ainda vale alguma coisa”, pensa Estela. Ratos e solidão?
Não quer dar o braço a torcer. Olha o sujeito de alto a baixo e diz:
“Você de novo, Petrarca? Entra...”


sexta-feira, 15 de julho de 2011

TEATRAL: ABAIXO A PORNOGRAFIA!

ADVERTÊNCIA 2: Como tenho recebido inúmeras críticas e descomposturas pelo texto abaixo, vou logo avisando aos distintos leitores e visitantes: o que não falta nesse "Teatral" é pornografia. A própria ideia é pornográfica (faturar a cultura). Portanto, se não gosta, nem comece a ler. Mais abaixo tem outros que talvez você goste. Obrigado pela visita. Volte sempre.

O palco está às escuras, ainda com as cortinas cerradas. Nota-se um certo movimento, ruídos de copos, passos e cadeiras arrastadas. Plateia em penunbra.

(Voz feminina):

- Ai, ai, ai... Alguém comeu minha bocetinha ontem.
(Na plateia, lá no fundo, um figurante puxa a gargalhada, logo seguido por outras pessoas)

(No palco, a mesma voz feminina pergunta indignada, depois que os risos cessaram):

- Foi você, Toni?
(Voz masculina também no palco às escuras):

- Eu?! Eu, não... Comi alguma ontem, mas não foi a sua.

(Voz feminina):

- É pra isso que a gente casa? Pra ter um marido que come uma vagabunda qualquer enquanto deixa a própria esposa ser comida por... sei lá quem. Foi você, Gian?

(Outra voz masculina responde):

- Eu não comi ninguém... Quer dizer, não que eu me lembre.

(Novamente o figurante puxa outra gargalhada. Nisso abre-se a cortina, com o palco precariamente iluminado. Percebe-se que é um ensaio de uma peça, com atores e atrizes ainda segurando folhas de papel com suas falas. Ouve-se a voz do diretor, que vem de um megafone):
- Patrícia, você precisa mudar o tom de voz. Tem que ser um pouco mais exaltada, indignada. Lembre-se que você foi comida e não sabe quem foi o cara. No mínimo, não pode dar uma de boazinha, por mais que você queira.

(Voz feminina, que agora sabe-se ser de Patrícia, dialoga com diretor):

- Tá certo. Quer repetir a cena?

(Diretor em Off):

- Não. Deixa pra depois. Vamos em frente. Procure dar mais emoção à personagem.

(Patrícia, erguendo a voz):

- Só pode ter sido você, Daniel... Eu sabia, devia saber. Por que não fodeu a vagabunda da Celinha? Não é ela que é tua namorada?

(Celinha levanta-se vai na direção de Patricia):

- Vagabunda é você, que dorme sem calcinha, esperando que venham te comer. Olha só, tá até agora sem nada...

(Celinha tenta levantar a saia de Patrícia, que se esquiva. Nesse momento o palco se ilumina, mostrando uma sala desarrumada, mas com móveis e objetos de decoração luxuosos. Foco em Patrícia, que diz):

- É pecado agora andar à vontade dentro da própria casa? Não sabia... Foi você ou não foi, Dan?

(Daniel mexe-se no sofá, no canto oposto ao de Patrícia. Levanta, boceja e diz):

- Eu o quê, Pat?

(Patrícia, indignada):

- Quantas vezes vou ter que perguntar: alguém comeu minha bocetinha ontem, foi você?

(Celinha grita):

- Não responde, amor... É armação dela.

(Daniel):

- Sei lá se fui eu, Pat... Pode rer sido, mas que importância tem isso agora? Você dá pra todo mundo mesmo...

(Celinha):

- Não responde, Dan, não responde. Ela deve estar grávida e vai dizer que o pai é você. Eu conheço essa vadia.

(Daniel):

- Péra aí... Não tô entendendo nada. Como é que alguém pode ficar grávida da noite pro dia?

(Celinha):

- Não é isso, seu burro! Desculpe, Dan... Não quis ser grosseira. Ela já estava grávida antes de você fodê-la, entendeu?

(Patricia):

- Hãhã... Foi o Dan mesmo, não foi, dona Celinha? Na certa foi você quem mandou. Deve ter dito: “Vai lá, Dan... Come a vagabunda que ela tá querendo.

(Fred):

- E eu só queria saber que caralho é esse de todo mundo sair falando porra de palavrão pra tudo que é lado, puta-que-o-pariu... Tá parecendo peça de filho-da-puta que não sabe merda nenhuma a não ser falar pornografia.

(Diretor entra em cena):

- Não é assim com essa moleza, caralho! Fred, você está puto da vida com a babaquice da pornografia barata, entendeu, seu porra?

(Diretor, virando-se na direção de Patrícia e Celinha):

- Pat, quer fazer o favor de calar a boca... Já falei que não é pra ficar conversando no meio do ensaio, ainda mais com a Celinha que é sua inimiga na peça, assim não dá, cacete...

(Celinha):

- Calma, Di... é só o ensaio, na hora vai dar tudo certo. Vamo lá, vamo lá...

(Diretor):

- Quê que é isso agora?! É você que tá dirigindo?

(Celinha):

- Poxa, Di... Só queria ajudar, você reclama de tudo

(Diretor)

- Tô no meu papel, diretor é assim mesmo, tem que reclamar, berrar, dar porrada. Quer ver? Pat, da próxima vez que você ficar com vergonha de falar na bocetinha, eu arranco a tua roupa e como o teu cuzinho aqui mesmo!

(Patrícia, finge que está fazendo beicinho):

- Por isso que eu não queria ensaiar essa peça. Sabia que ele ia acabar confundindo as coisas e me tratando como uma putinha qualquer.

(Celinha):

- E você o que é, Patrícia? Além de uma putinha vagabunda...?

(Fred):

- Pronto, voltamos à vaca fria

(Daniel):

- Se você diz que é fria é porque não comeu, Pat é um tesão, cara.

(Risos)

(Patrícia):

- Não falei? Sabia que tinha sido você, Dan.

(Daniel):

- Eu o quê?!

(Patrícia):

- Você que comeu minha bocetinha ontem, sabia que...

(Diretor)

- Para, porra... Para! Pat, você ficou vermelha de novo quando falou bocetinha, pode uma coisa dessas?

(Celinha):

- Esquece, Di... Quê que tem? Deixa pra lá, se ela tem vergonha, problema dela

(Diretor):

- Problema dela é o caralho, porra...

(Fred, baixinho em aparte para a platéia):

- Olha a vaca fria aí de novo

(Diretor):

- Pat, vem cá... Olha bem nos meus olhos e fala

(Patrícia):

- Fala o que?

(Diretor):

- Bocetinha, fala: bo ce ti nha.

(Patrícia, imitando os gestos do diretor):

- Bo ce ti nha

(Diretor):

- Isso, agora fala de uma vez só, bem rápido

(Patrícia, fala rapidamente):

- Bocetinha

(Diretor):

- Pronto, ficou vermelha novamente, mas não é possível. Vou acabar tirando a tua bocetinha da peça

(Celinha):

- Péra aí, péra aí... A peça não é pra descobrir quem comeu a bocetinha da Pat? Se você tirar a bocetinha dela, acaba a peça, caralho.

(Diretor):

- Tem razão. Pat, fica vermelha, fica roxa, fica do jeito que você quiser.

(Diretor, olhando para Patrícia):

- O que foi agora? Tá chorando por quê?

(Gian):

- Você magoou ela, cara. Patrícia é uma menina sensível. E as meninas sensíveis choram, ficam vermelhas... entendeu?

(Diretor, resmungando):

- Era só que me faltava, aqui só tem amador...

(Fred para o diretor):

- E você é o quê? O Francis Ford Cupolla por acaso?

(Patrícia):

- Não é Cupolla, Fred... É Copolla. Deixa o "Cu" fora da peça

(Diretor):

- Sabe que você me deu uma idéia genial, Pat? Em vez de comerem a tua bocetinha, alguém vai comer o teu cuzinho, ah vai...

(Diretor bate palmas e fala para o elenco):

- Ensaiando, ensaiando... vamos voltar à noite em que Gian e Toni chegam bêbados e abraçados. Pat vai se deitar lá naquele canto do palco...

(Patrícia):

- Para, pode parar... Eu falo bocetinha sem ficar vermelha, a verdadeira atriz sabe se controlar, quer ver? "Bocetinha". Pronto, falei...

(O elenco inteiro aplaude a atriz. O diretor se aproxima, beija e abraça Patrícia)

(Depois de algum tempo, Celinha diz):

- Chega, Di... Você já foi longe demais com isso. Até as poltronas do teatro sabem que essa merda de peça só existe pra você faturar a Pat, só ela que ainda não percebeu. Você não vai fazer nada Toni? Vai ficar calado vendo o diretor agarrar tua mulher?

(Toni):

- Porra, Celinha... Você pirou? Pat só é minha mulher na peça, se o diretor quiser comê-la na real, pra mim tanto faz...

(Patrícia):

- Já sei, descobri!

(Patrícia para o diretor):

- Foi você não foi, Di? Fiquei sabendo pela pegada... senti.

(Celinha)
- Vagabundo... Era isso que você queria, desde o início, comer a protagonista.

(Diretor)

- Cala a boca, Celinha... Vem cá, Pat, deita aqui no sofá. Se solta, menina...

(Celinha aponta para os dois):

- Não falei? Olha lá...Tá até agora sem nada por baixo, a vadia.

(Fred):

- Todo esse carnaval pra comer uma putinha que dá pra todo mundo. Querem ver?

(Fred apontando para a plateia):

- Algum de vocês aí quer vir comer a Pat? Sobe aqui, vem...

(Alguns figurantes sobem da plateia para o palco. Cai o pano)

(Voz de Fred, lamentando):

- Agora é que a vaca foi pro brejo... Adeus patrocínio, adeus incentivo à cultura, Lei Rouanet é o caralho... O pau vai comer, no mau sentido.
(Fn)
OBS. Como era de se esperar, as críticas ao texto acima são ácidas, desestimulantes, algumas indignadas. Contudo recebo-as de bom grado, como a qualquer elogio. Amante incondicional da liberdade, sobretudo a de expressão, tentei habilitar novamente os comentários, mas até agora não consegui. Por enquanto, aguardo porradas e porretadas by mail, pode ser?

segunda-feira, 9 de maio de 2011

Um Peixe Fora D'Água

Massimo abriu a janela e deixou entrar em ondas as cores do cartaz luminoso. Piscavam as imagens, arregalava os olhos: era pra ser uma propaganda de cigarro, ou de whisky, mas não o de sua marca. 
No edifício em frente alguém fez um movimento semelhante: abriu a cortina, ou ergueu a persiana, pôs a cara pra fora da janela... Era ela: Júlia. 
 M. segurava o copo enquanto J. acendia o cigarro. Ficaram por ali fumando e bebericando, a rua estreita, os edifícios quase colados, as janelas se entreolhavam. À noite, na cidade suja e decadente, a escuridão nunca era plena.


Massimo viu alguém chegar por trás da mulher que fumava. Os braços a enlaçaram. De onde Massimo estava, só podia ver o rosto de Júlia, seus peitos pequeninos debaixo da blusinha azul e as mãos do homem os enconchando. J. parecia gostar. M. não viu se ela ria, mas imaginou que rir talvez não fosse a melhor reação para o momento.


Mascou, murmurou, tossiu...Disse, até que bem alto: “Vagabunda...” Nessa hora, não por raiva ou frustração, mais por desejo.


Queria estar no lugar do homem que apertava Júlia? Queria, muito mais, apertar alguma coisa em direção ao homem que prendia Júlia.
Deu três passos para trás e saiu do pequeno campo de luz que invadia o quarto. Enfiou o olho esquerdo na mira a laser, lente infravermelho, e lá estava ela: J. em transe, a mão do homem por baixo da blusinha azul transparente. Viu quando o cara mordiscou a nuca de Júlia, levantou os longos fios de uma densa e ondulada cabeleira, apertou de leve seu pescoço, como se estivesse fazendo uma simples massagem, depois beijou, passou os lábios, fungou, esfregou o queixo... Lente de alta definição, dava pra ver, na cara do porco, os pelos de uma leve barba por fazer. Sentiu J. arrepiar-se toda, até a alma.
O gatilho roçou no dedo de Massimo. Naquela hora, algo o segurou. Quem sabe, o prazer de Júlia, o desejo ardente do homem que a abraçava...


O que faz um sujeito alugar um quarto minúsculo bem em frente ao apartamento da mulher que o trocou por outro? Na lógica de Massimo certas coisas não devem ser respondidas, pura e simplesmente. Pensa ele que todos os crimes que porventura venha a praticar já foram muito bem pagos com a prisão injusta, longos meses na cela imunda, até provar que não tinha intenção de matar ninguém, sequer pensou em atirar. Foi por falta de provas que ele saiu livre, sorrindo para o promotor e repetindo mil vezes: “a arma disparou acidentalmente, acertou a puta de raspão...” A mesma puta que agora o provoca na janela em frente. Excelente advogado aquele. 
O que faz um homem como Massimo se julgar no direito de julgar-se a si mesmo e dar quitação a um crime que irá cometer mais dia menos dia? Nada o atrai tanto na vida como apertar o gatilho, talvez só o calor de Júlia, ardendo no próprio corpo recém-ensanguentado. E uma coisa é consequência da outra: o gatilho neste lado da rua; o riacho de sangue no assoalho do apartamento em frente. 


O amante de Júlia, o canalha que em breve irá morrer por ter ajudado J. a se vingar de M., agora desabotoa a camisa e encosta nela o peito nu. Estão os dois agarrados à mesma sofreguidão. Ele arranca a blusa de Júlia e a puxa  para o interior do quarto semiescuro. Massimo pensa que o homem não pretende se esconder, muito menos proteger-se  de olhares indiscretos. Talvez apenas procure a cama ou o chão frio, para fornicar com a mulher que Massimo sempre amou. 

No cartaz, a luz que emana do copo é amarela; a fumaça do cigarro é azulada. “Tem cor de lâmpada de geladeira velha”, Massimo pensa. 


Agarrados, voltam à janela. Agora sim Júlia está inteiramente despida e o sujeito a possui por trás. Os peitos de Júlia balançam para quem quiser ver. Massimo enxerga no rosto de J. o desespero do prazer. De seus lábios brotam doces ofensas, tão familiares: “Animal... animal...” 
Júlia verga seu corpo, encosta o tórax no parapeito da janela. O homem enfia as unhas nas costas de J. Ela grita. Massimo não acredita na dor que deve estar sentindo.


Júlia se desvencilha. O homem agarra com força seus cabelos negros, empurra a cabeça para baixo, obriga J. a ficar de joelhos na sua frente. Massimo não vê senão a cara em êxtase do amante de sua amante.  
Depois é a vez do homem se ajoelhar na frente de J., que levanta a perna esquerda até a altura da janela. M. imagina que é nele, Massimo, que ela pensa. São os mesmos lábios crispados, os mesmos olhos perdidos, o mesmo gozo que tantas vezes alcançou a seu lado.


Massimo acha que os dois estão nus, trepando na frente da janela só para o provocar. É ele que Júlia quer, ninguém duvide.


Depois desaparecem. Massimo sabe que estão deitados no chão, se esfregando, se unhando, se mordendo... um sorvendo a entrega da outra. “Como dois gambás imundos...”, ele diz baixinho.


Nos ouvidos de Massimo entram as risadas da cela e a pergunta: “Pode um homem morrer de ciúmes por uma mulher que nunca o amou?”


"É uma puta? Quem mandou se apaixonar?”, ouve uma voz, idêntica à sua, martelando seus ouvidos.


Apenas uma bala deverá vazar o corpo de J. e atingir o amante que a envolve. O impacto é tão forte que os dois se estilhaçam na parede ao fundo do quarto. O dedo abandona o gatilho. O nariz de Massimo, peixe fora d’água, sai à procura de um ar que não é dele, oxigênio podre, como qualquer fumaça a sair de copos e canos.   
fn

sexta-feira, 8 de abril de 2011

Aos Brasileirinhos

... quando comecei a ouvir os tiros,
um em cima do outro,
rá-tá-tá-tá, parecia tambor de ursinho de brinquedo.
Depois, o pensamento tão longe...
que eu nem sei aonde ele foi com essa tristeza.

domingo, 3 de abril de 2011

Romantismo

Acredito no amor depois do sexo ou, caso raro, que os dois surjam ao mesmo tempo. Só não creio no sexo depois do amor. O resultado ficará sempre abaixo do que idealizamos.

domingo, 27 de março de 2011

domingo, 13 de março de 2011

Andarilho

Fn

Acordar com o pé esquerdo
morder a isca da manhã
assim como quem não quer nada
cair na armadilha da rotina
que implica em não revelar
o outro lado do lado B
que não é o A.


Escrever ao contrário
esperar que venham me contar
quantos foram hoje 
demitidos da vida
por causas naturais
esperar, torcer, rezar
para que não me apareçam
com o dvd de lançamento do blu-ray
ou as novas sensações
um blu-ray apresentando o 3D
e as TVs com odores vários
gente sem tato
o cheiro de pizza inebria
os famintos no outro lado da vitrine
que não é a rua.


Julgar quem me lê
nas entrelinhas
a faca em ponta de murro
suprassumo em goles fartos
e ainda por cima
correr atrás de uma rima
uma só é o que interessa
só me faltava essa.


A lua contudo
vista por quem faz de cama a crosta terrestre
anda amassada e baldia
mas é a fase.

terça-feira, 1 de março de 2011

Olhar sem julgar...

Difícil, é como parar na porta do hospício e não entrar pra ver como é que é.

domingo, 20 de fevereiro de 2011

Da Série "Me engana que eu gosto"

O que significa a expressão da moda "viver no presente"? Que presente é esse? O que acabou de passar (e eu nem vi) ou o que você acha que vai acontecer em seguida, logo depois de ler a última palavra deste inocente post? Não existe presente algum, esta é a triste verdade, meu caro, minha cara. Também não existe passado. Por quê? O que passou, passou... certo? Não há como mudá-lo, portanto, esqueça-o. O que existe, na verdade, é o futuro. Meu conselho: viva com ele, case-se com ele, abrace-se a ele (conforme o caso não precisa casar, basta se amigar).
O futuro não tem erro. Mesmo porque se tiver, ainda não foi cometido. O futuro é você quem faz, como bem entender. O futuro é brilhante e promissor (qualquer coisa você troca de canal e esquece esse filme de ficção científica). Viva o futuro! Viva no futuro! Muito antes do que você imagina ele vai ser todo seu. *

* Mas sem autoajuda, sem autoajuda

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Atalhos do Medo

Um sujeito, bandido da pior espécie, sequestra uma jovem e a mantém prisioneira, em cárcere privado, por anos e anos. Um dia, a garota foge e denuncia o sequestro. O bandido então se mata, com um tiro de revólver em sua estúpida cabeça.
Ninguém de boa fé pode se sentir satisfeito com o desfecho do crime (está na moda em nossos loucos dias). Na verdade, todos nós concordamos que a pena deveria ter sido muito maior do que a morte imediata, quase indolor. É ai que alguns introduzem não só a ideia de um deus todo poderoso, que fará a verdadeira justiça, como também imaginam um céu e um inferno, para premiar os bons e castigar os maus, tudo isso depois da morte, é claro.
Verdadeiro ou falso?
Há controvérsias. Por enquanto só dá pra concluir que não se deve confiar em nenhum deus, de qualquer religião, para evitar desgraças no mundo dos vivos.
Verdade que não são poucos os que se afastam do crime muito mais por temer a ira divina do que a lei dos homens. Por quê?
Uma parte da resposta é a própria justiça quem dá. A nossa, aqui no Brasilbrasileiro, tarda e aceita recursos e filigranas jurídicas de toda ordem. Condena inocentes, absolve culpados, protege seus pares. Diante de tanta ignomínia, a maioria talvez tenha razão em concluir: “melhor entregar pra deus...” Se houver um, duvido que concorde em aceitar a missão.

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

DOIS DIAS ANTES DE ACABAR A GUERRA

Fn


Sequei.
As águas que antes corriam caudalosas, arrancando estacas, alagando o pier, para enfim naufragar nas areias de uma praia qualquer, desinundada, foram essas águas que em mim secaram.
Motivos há, ou deve haver:
O céu de chumbo.
A poeira da estrada.
Os amontoados no mapa da África em duas dimensões.
O não-ligar, simplesmente não ligar.
O levantar da cadeira e sair em busca de um livro ou de uma xícara, cheia até a metade de qualquer coisa fumegante, que não será sorvida nos próximos cinco minutos, até que esfrie ainda mais esse não-ligar. 
O som que brota de animadas festas, para as quais detestaria ter sido convidado.
A madrugada em si.
As mentiras que as águas para sempre levaram.
O ver-se a si mesmo como o último grande marsupial carnívoro.
O desculpar-se em silêncio.
O não ter motivos.
Quantas vezes você pensou que era chuva a água que caía de um chuveiro?
Fui ao médico. Na volta, pensei: “O que ele diz, não escreve”. As letras pequeninas tremiam sob os olhos do farmacêutico incrédulo. Imagética. O sorriso do médico: “Você está forte como um touro”; os olhos do farmacêutico: “Tome esses compridos e ligue para o IML na próxima esquina, onde há um orelhão azul, meio judiado”. Não levei a mal aquele examinar-me de alto a baixo.
Mas o fato é que sequei e não me arrependo. Não me arrependo de ter secado nem de ter dito essas palavras, que se sobrepõem a todas as outras que já disse um dia, para sempre petrificadas. 
(Em tempos diluvianos, achei melhor pinçar alguns de volta. Para chover no molhado.)

sábado, 4 de dezembro de 2010

A Saga de Virgílio

1 -  O Fornecedor de Álibis


Quando pegaram o suspeito para interrogatório e futuras averiguações, todos nós ouvimos sair de seus lábios trêmulos estas palavras muito bem ensaiadas: "Com que interesse eu mataria alguém que amo e depois deixaria a arma de minha propriedade no local do crime? Tudo isso sem possuir um único álibi, a não ser o de estar vagando naquele momento pelas ruas desertas de uma outra cidade, alheio à fina garoa da madrugada, me protegendo apenas com a gola do paletó erguida, talvez para que ninguém mais viesse a me reconhecer e a testemunhar a meu favor? Podem me dizer se acham que eu seria capaz de tamanha estupidez para me autoincriminar?"
Primeiro que ninguém fala assim, de um modo tão, tão, tão..., disse um dos nossos.
Em seguida, outro dos nossos homens acrescentou que não era seu trabalho averiguar a índole das pessoas, muito menos escavar suas neuroses, deixava isso a cargo das... Não chegou a terminar a frase (a palavra devia ser “psicólogas” ou “psiquiatras”), mas não chegou a concluir porque alguém entrou na pequena sala de paredes espelhadas e resmungou algo no ouvido do chefe, que esmurrou a mesa, soltou uns dois ou três palavrões cabeludos, acompanhados pela tradicional e inofensiva expressão: "Só faltava essa..."

Quase todo mundo vê o futuro como uma continuidade do passado, olham para trás e acreditam que assim também será o futuro. Não se dão conta que o espelho que procuravam é falso, ilusório, quando não, traiçoeiro, demoníaco. O espelho do passado raramente joga luz no presente. O futuro? Não se meta com quem você não conhece, pode ser um bom conselho.

O suspeito quase perguntou se aquele "essa" que o chefe proferiu poderia ser a sua advogada que acabara de adentrar com o tão esperado habeas-corpus. Conteve-se a tempo, tendo em vista a real possibilidade de vir a ocupar o lugar da mesa nas mãos do chefe. O encarregado do inquérito retomou: "Acha que alguém vai acreditar nessa boboseira? Desde quando levamos em conta o que um sujeito faz ou deixa de fazer contra si mesmo?" Ficamos naquilo de montar a peça acusatória, baseada em evidências, que eram muitas e apontavam para uma só pessoa.
Hoje, depois de todas as surpresas que tiveram que engolir, fico pensando naquele momento do inquérito, quando alguns olhavam para o único suspeito e chegavam a sentir uma certa simpatia pelo seu desolamento. Mais tarde, muitos confessaram que jamais lhes passou pela cabeça que era tudo parte de uma encenação. Eis porque, como lhes disse, os olhos do passado só servem para olhar o próprio passado.
Não é que a arma encontrada no local do crime não pertencesse ao suspeito. A perícia, no entanto, comprovou que a bala que matou sua amante não havia saído daquele revólver. De qual, então? O suspeito teve seu primeiro motivo para sorrir levemente.
O segundo motivo veio com fitas de vídeo apresentadas pela tal advogada, que sabia como ninguém irritar o chefe (há quem insinue que existia algo entre os dois, que nunca teria sido revelado). As imagens gravadas por diversas câmeras de ruas e prédios comerciais identificaram alguém muito parecido com o suspeito, caminhando com a gola do paletó levantada, na mesma madrugada em que a mulher fora morta. As ruas, como todos devem imaginar, pertenciam à região central daquela cidadezinha que o acusado blá-blá-blá-blá...
Mais tarde, surgiu um misterioso frentista de posto de gasolina que jurou ter visto o ex-suspeito atravessando a pracinha da prefeitura, a defesa ainda teve a desfaçatez de juntar ao processo um bilhete de ônibus interestadual, em nome do acusado, em data e hora que se encaixavam como uma luva para comprovar sua inocência. Eu disse, só por dizer, é claro, que poderia ir atrás do motorista do ônibus e tomar seu depoimento para confirmar o embarque do quase-bode-expiatório, mas todos riram do meu "exagero", o chefe deu um tapinha nas minhas costas e disse um “deixa pra lá, Virgílio”, como quem mastiga as cápsulas de um 38, de modo que só me restou a alternativa de embolsar a grana que os mandantes do crime me pagaram para destruir uma a uma as evidências de um assassinato a sangue frio, torpe, porém altamente lucrativo, mesmo depois de subornar o detetive da seguradora.
Enquanto me dedico a essa nova e promissora profissão de "fornecedor de álibis", volto a pensar que as pessoas ingênuas talvez tenham uma certa razão, quando dizem: "O futuro, a Deus pertence". Pode ser... mas só se esse “Deus” de que eles falam não for aquele do passado que ninguém esquece. 

2 - Novíssimas Profissões


O homem parou sob a estátua do herói a cavalo, acendeu o cigarro. A outra mão, enfiou-a no bolso do casaco de lã. Apertou o frasco gelado. Passou pela sua cabeça uma irresistível vontade de olhar o vidrinho, talvez para conferir se ainda era o mesmo, com sangue até a metade. Conteve-se. Soltou uma baforada e atirou o cigarro quase inteiro na rua deserta. Parou de apertar o frasco, tirou a mão do bolso do casaco, vestiu as luvas cor da pele e atravessou a rua em direção à casa onde deveria fazer o "serviço".
Com o passar do tempo, desenvolveu o que chamava de "habilidades", a principal de todas: olhar para três, quatro posições ao mesmo tempo e conciliar situações, muitas vezes conflitantes. Um exemplo estava bem ali à sua frente: teria que entrar sem ser visto, driblar olhos humanos e eletrônicos, fazer o que devia ser feito, sem perguntar nada a ninguém, muito menos à sua própria consciência abandonada. E o que devia ser feito, além de espargir o sangue de um inocente (que em breve se tornaria culpado) na casa de uma vítima, cujo corpo lá deveria estar em repouso no chão da sala? Apertou de novo o vidrinho, olhou em volta e pensou que ninguém deveria ter pena do tal "inocente" que iria pagar o pato , pois era ele mesmo culpado de uns tantos outros crimes dos quais se safara até então, alguns bem piores do que esse de "matar" um vigarista igual a ele.
O verdadeiro culpado? Aquele que ia se livrar incólume tendo em vista as novas evidências? Sobre esse, tudo o que podia dizer é que sabia honrar seus compromissos e que não era a primeira vez que financiava esta novíssima profissão de fornecedor de DNA, que ele agora exercia com todo cuidado e respeito às normas.
Entrou na casa como um gato sorrateiro. Abriu o frasco, espalhou com parcimônia o sangue imundo. De lá mesmo ligou para a polícia usando o celular do morto. Serviço completo, todas as pistas foram deixadas conforme o roteiro, passo-a-passo na sua cabeça, que agora pensava que estava na hora de sair de cena e deixar que outros concluíssem o resto da trama. Cuspiu o chiclete e foi para casa sem tirar as luvas: a noite era negra e fria.


3 - Pêndulo


Naquele cartaz não tem um cara sentado? Isso, o cara olhando o cartaz, esse mesmo... Está sentado no banco da praça, desta praça onde estamos agora, de costas para nós, olhando o cartaz aqui em frente, no outro lado da rua, tá vendo? Só para ter certeza de que falamos da mesma pessoa, refiro-me ao sujeito de calça bege, paletó azul marinho, com um boné igualzinho ao que você usava antes do acontecido. Ele mesmo, é você... Só não sei quando, se ontem ou se amanhã, creio que ninguém pode afirmar. Pensam as pessoas que se é você no cartaz tem que ser uma foto, e uma foto só pode ter sido tirada antes dessa nossa conversa. Entendo que pensem assim, mas e se esse "você" que olha o cartaz e ouve minhas perguntas, for um "você" anterior à foto do cartaz? Como é possível? Muitas coisas nessa vida parecem impossíveis, Virgílio, eu mesmo não acreditava que você, esse você que está aqui do meu lado agora, fosse capaz de se levantar calmamente do banco de praça naquela foto e, como quem vai ali no bar comprar um cigarrinho a granel, fazer o que fez, só a título de vingança. Não foi vingança? Foi o quê, então? Diletantismo talvez; espírito de aventura? Queria eu saber, Virgílio, o que você sentiu de fato quando Manu se insinuou para o seu lado, e você pensando que devia ser pena ou um arrebatamento que algumas mulheres lindas como ela não conseguem controlar. Foi isso que pensou no primeiro momento, Virgílio? Manu com pena ou apaixonada?! Tá bom... Entendo que qualquer um, na situação em que você se encontrava, poderia pensar qualquer coisa, qualquer besteira mesmo, como essa de se iludir com a pequena e deslumbrante Manu. Armaram odiosamente contra você, isso todos nós sabemos. Só não o defendemos porque um pequeno detalhe, que só você não sabia, barrava qualquer ação em sua defesa. Agora que você já sabe que tudo não passou de um plano para testar duas coisas - sua capacidade de reagir nos piores momentos e sua efetiva lealdade -, o que nos diz, Virgílio? Arrepende-se da intriga que tentou construir contra mim e outros amigos, valendo-se de Manu e de suas ilusórias falsidades? Ou será que nem arrependimento você é capaz de sentir? No final das contas, fomos todos prejudicados, porque os diretores não gostam que seus planos se modifiquem no meio do caminho, você entende? Culpam a mim, por não ter alertado você no momento exato, mas como iria eu adivinhar que momento era esse? Culpam você porque não confiou cegamente na missão que lhe destinaram, mas, reconheço, como iria você adivinhar que a tal “missão” não passava de um teste? Culpam Manu por ter se envolvido, dizem eles, além da conta, mas, como disse a própria Manu, como iria ela adivinhar qual era o ponto certo para desiludi-lo de seus propósitos, Virgílio? Sobrou até para o marido de Manu, se você quer saber, consideraram “exagerado”, “despropositado”, o ciúme que sentiu, sentimento bem mais forte, segundo analistas, do que a tal lealdade que de todos nós é exigida. Parece que há mesmo um divisor de águas entre sentimentos pessoais, como o ciúme, a covardia ou a ganância, inerentes a todos, e os sentimentos ditos sociais, que muitos não possuem, como a honestidade, a fé. ou a lealdade. Finalmente, meu caro, gostaria de saber se você já imaginou o que poderia ter acontecido se o seu plano de vingança alcançasse os objetivos que você mesmo traçou? Se a tal pessoa que lhe ouviu não fizesse parte também da encenação? No mínimo, Virgílio, você seria encaminhado a um manicômio, enquanto investigavam os detalhes do “crime”, tão torpe quanto falso. Sim, meu amigo, você sairia daquela foto no cartaz para um manicômio, que é o lugar adequado para quem insiste em atrapalhar o bom andamento da vida, inventando estórias sem pé nem cabeça. E se eu te disser que até hoje, até agora, neste exato instante, você está sendo analisado e podem não estar gostando do jeito que você aceita as coisas, com toda essa passividade? Até com um certo desencanto? Infelizmente para todos nós, a vida não é só aquilo que passa diante dos nossos olhos, Virgílio, pense nisso.

4 - Coisas da Vida


Virgílio, você não é burro, longe disso. Assim sendo, ou não sendo, já deve ter-se perguntado alguns milhares de vezes: “Por que diabos uma vagabunda que eu nunca vi na vida viria aqui na porta da minha  casa me ofender e dizer que eu devia a ela não sei quantos meses de pensão?” Perguntou ou não perguntou, amigo Virgílio? De nada adiantou você jurar para a sua mulher que nunca tinha visto a infeliz mais gorda, aliás, esse negócio de “mais gorda”, na hora, levou sua esposa a cogitar que você e a infeliz tiveram um filho juntos, um só, Virgílio? Claro que uma pessoa como você, que de burro não tem nada, entendeu perfeitamente a posição desagradável em que sua mulher se encontrava, é ou não é? Até deu razão a ela, embora culpa mesmo você não tivesse nenhuma, não nesse caso. Mas, como diziam os antigos carbonários, onde há fumaça, há fogo, e Martinha, sua esposa e minha comadre, estava coberta de razões para suspeitar de tudo que você jurasse dali pra frente, porra, Virgílio, voltamos à estaca zero, o que levaria uma vagabundazinha a fazer o que ela fez se você sequer a conhecia? Mulheres são mulheres, meu amigo, e nessas horas sempre levamos a pior, é o que pensa você? Já sei que você chegou até a se ajoelhar na sala da sua bela residência, contou que nessa hora Martinha jogou na sua cara detalhes que a putinha falou a seu respeito e que só uma pessoa que viveu a seu lado poderia saber. Marta chorou, Virgílio? Tá certo, isso não vem ao caso. Você me diz que os tais detalhes podem ter saído apenas da cabeça de Martinha pra te encostar na parede, que por sinal anda precisando de uma bela pintura, ahn? Eu não digo nada, nem que sim, nem que não, você ainda acha que toda essa armação só pode ser obra de alguém querendo prejudicá-lo, um inimigo oculto, desses que comemoram o Natal nas penitenciárias, mas eu penso, amigo Virgílio, que uma pessoa que deseja prejudicar a outra dessa forma, primeiro mandaria cartas anônimas para depois chegar ao extremo da encenação. O quê?! Houve as tais cartas? Sua mulher nada revelou porque pretendia investigar a fundo o conteúdo da intriga? Poxa, Virgílio... Parece que a trama foi bem armada, pegaram você direitinho, meu amigo. Mas, me responde uma coisa, já pensou na hipótese de ter alguém querendo semear a discórdia entre vocês para, em seguida, seduzir Martinha? Já pensou? Acha que só pode ser isso, ou algo do gênero? Não se apresse em suas conclusões, Virgílio, e também não precisa ficar me olhando desse jeito, o quê que há...? Somos amigos há mais de sete meses e uns quebrados. 



domingo, 10 de outubro de 2010

O Saco de Pancadas


Como a vida andava de lado e não havia nada a fazer, resolveu não fazer nada na porta da igreja. Ficou uns trinta, quarenta minutos sentado no último degrau da escadaria, aquele que antecede a calçada ou o passeio, como gostam alguns. Reparou que as pessoas não reparavam, ninguém dava a mínima se ele estava ali ou deixava de estar, isso até que uma jovem e robusta senhora, bem apanhada, com uns cento e trinta quilos mais ou menos, tropeçou na sua pobre perna esticadinha. A mulher se revoltou, virou bicho, gritou meia-dúzia de palavrões cabeludos, apesar do local inapropriado. Bufou, soltou fogo pelas ventas, xingou, disse que ele nem sabia pedir esmolas como qualquer mendigo que se preze. Aí, sem que ele a provocasse, meteu-lhe um pontapé na perna agora encolhida. Doeu que foi o cão... Mas sabe como é, não havia nada a fazer. A mulher foi embora e ele continuou ali sentado esfregando a coxa roxa, pensando que nem esmolas sabia pedir. Meia-hora depois a mulher voltou. Ele se assustou, chegou a pensar em correr, mas a mulher abriu a carteira e entregou para ele uma nota de cinco: "Fiquei com pena, viu... O padre disse que não é pra ser mau com os inúteis como você. Pegue a sua esmola antes que eu me arrependa, seu traste".
Ele pegou, agradeceu, pensou em mostrar a mancha roxa pra ver se descolava uma graninha extra, mas para isso ia ter que abaixar as calças em público e, sabe como é, a mulher podia não gostar...

Muitos anos depois, ele ainda se lembra com carinho dessa primeira e salvadora experiência. Já está rico, proprietário de imóveis, contas no exterior, carros de luxo, mulheres... Bem, é melhor voltar ao tempo em que teve a idéia de ganhar a vida com a ira alheia.

fn produções apresenta:
O SACO DE PANCADAS

Manuel dos Anjos, o popular "Mané deixa-que-eu-chuto", era vítima de um defeito congênito que o fazia capengar além da conta, mas como passava a maior parte do tempo sentado, quase ninguém dava importância à sua deficiência. Segurando a nota de cinco, volta para casa e começa a filosofar com seus botões e zíperes: "Se tem gente que ganha dinheiro socando os outros, por que diabos não posso eu ganhar a vida sendo socado?"
Em pouco tempo a notícia se espalhou. Havia um louco na cidade oferecendo a cara a tapas, por uns míseros "cinco ou dez real", dependendo do tamanho da porrada.
No início, os pessimistas de sempre acharam que aquilo não ia dar certo: "Vejam só... Alguém vai pagar pra bater no perneta?"; "Se eu quisesse bater, surrava sem pagar mesmo..."
Mas com o passar dos dias, e a vida andando de lado pra muita gente, começaram a aparecer os primeiros fregueses. Primeiro foi o motorista de táxi que acabara de levar uma multa no trânsito, como sempre injusta; depois foi a vez da mulher que tomou uns tapas do marido e resolveu descontar em alguém, já que o dito marido era lutador de karatê; mais tarde veio o dono da padaria, obrigado a fechar as portas por culpa do supermercado; em seguida apareceu o dono do supermercado, prestes a vender a rede para uma transnacional...
Mané concluiu que o negócio tinha futuro. Criou uma tabela: Soco ou Pontapé: R$ 5,00 a unidade; Cascudo: R$ 3,00; Sopapo: R$ 7,00 ... até chegar à surra completa, com direito inclusive a chute nos bagos, esta saía por módicos R$ 150,00.
Contam que Manuel dos Anjos, o popular "deixa-que-eu-chuto", era homem de extraordinária resistência física e proverbial autocontrole, posto que nunca chegou a desmaiar ou a ensaiar qualquer tipo de represália contra seus clientes.

Com o passar do tempo, Manuel dos Anjos passou a receber visitas de pessoas importantes, tais como o senador Peralta e o desembargador Justiniano, os dois interessados em contratar os serviços da "Deixa-Que-Eu-Chuto Empreendimentos Pugilísticos" para salvar o futuro de seus filhos, metidos em brigas de gangues em Brasília. Acreditavam eles que se os "meninos" tivessem um modo legal de extravazar a agressividade largariam mão das quadrilhas clandestinas e deixariam de incinerar mendigos e silvícolas aculturados, o único perigo era o "deixa-que-eu-chuto" bater as botas.
Mané os tranquilizou: "Quanto a isso, não se preocupem... Estou acostumado a coisas muito piores. Mesmo assim, caso venha a falecer, nossa empresa está organizada para disponibilizar um substituto à altura, de modo que os 'meninos' não ficarão desamparados..."
Pra encurtar a história, depois desse "servicinho", Mané passou quinze dias na UTI e mais dois meses internado no melhor hospital da cidade, com tudo pago pelos "clientes", que ainda gratificaram regiamente a fidelidade e o completo sigilo da empresa.

O tempo foi passando e Mané dos Anjos era cada vez mais requsitado. Com isso, inflacionou a tabela e terceirizou os serviços. "Apanhar" passou a ser uma profissão bem remunerada e atraente. Tanto assim que novas empresas surgiram no rastro da "Deixa-que-eu-chuto Worldwide". Seu site na web, o popularíssimo "www.querbaterbate.com", recebia milhares, milhões de visitas todos os dias.
Jovens mulheres, com proverbial faro para os bons negócios, aderiram à nova onda. No início criaram empresas onde apenas mulheres surravam mulheres. Depois, de olho nos lucros, expandiram para homens batendo em mulheres e mulheres espancando homens. Note-se que estas últimas atividades ganhavam contornos nitidamente erotizantes, de modo que foram pouco a pouco acrescentando fetiches, introduzindo sons e pedidos, do tipo: "Bate mais, paizinho..." ou "Vem, seu filho da puta..."
Mas a inveja é o que mais atrapalha a vida dos verdadeiros empreendedores. Gente sem princípios correu atrás do que julgavam ser uma atividade simples e lucrativa. Em pouco tempo, metade da população estava disposta a apanhar por alguns míseros trocados. Infelizmente, a outra metade não queria pagar para bater. Daí surgiram as promoções, liquidações e sales, tais como a "Semana do Bate-Grátis" ou a novidade: "Você nos cobre de porrada e nós cobrimos qualquer oferta da concorrência".
Foi durante uma dessas promoções enlouquecidas que um gringo de renome internacional desceu no aeroporto da cidade e disparou: "Esta povo ser o mais sado-masoquista do planeta". E a fama correu mundo...
Felizmente, nessa época, a "Deixa-que-eu-chuto" tinha feito de Mané dos Anjos um próspero capitalista, com investimentos diversificados na Bolsa de Valores, Títulos da Dívida Pública e do Tesouro Direto, entre muitos outros. Amigo do presidente do BC, dizem que chegou a participar como conselheiro na campanha eleitoral de uma candidata que adorava bater em todo mundo.
Por quê o chamaram? Que experiência tinha ele na política?
Pense bem, Mané dos Anjos ganhou a vida apanhando. E não é isso que o povo quer, não é disso que o povo gosta?

sábado, 11 de setembro de 2010

Pálidas Lembranças

Fn

Não lembro de nada, juro, só lembro da sua voz, sua pálida voz, ter dito, está na moda inventar personagens com amnésia, como se todo mundo conhecesse alguém que já teve amnésia na vida, você conhece?, perguntou, nem eu, respondeu. Amnésia, a verdadeira, não é fácil de ter, mas você, como eu, já viu mais de um ganhador da sena esquecer onde colocou o bilhete, o comprovante libertador, será que havia? Agora eu peço que não me interrompas, por maior que seja a tentação, se não há nada que eu possa fazer para dar cabo da infelicidade alheia, também devo confessar que há muito pouco a meu alcance para gerar algum grau de felicidade em quem quer que seja, whoever, certo? Ainda sou eu, sim ainda sou eu quem te pede que não abras a boca, não ouses abri-la, continuo perguntando a ti se uma pessoa pode ser ao mesmo tempo clandestina em sua aparência, embora totalmente aberta em suas incertezas de raiz, o que eu chamo de "incertezas de raiz"? Vi em teus olhos que era essa a pergunta que farias se esta boca que aí está, cerrada a meu pedido, pudesse se abrir, instantânea, para soltar uns poucos grunhidos, mas não a autorizo contudo, incerteza de raiz não é, de forma alguma, uma nova categoria ou um folder comportamental, pasta de sentimentos, diria eu, esqueça tudo isso e imagine que você está fazendo um teste, entendeu?, um teste de sim ou não, s ou n, em que você deve assinalar as alternativas corretas, e lá vem o primeiro item, tendência para se masturbar em praça pública, s ou n?, e você escolhe n, mas depois fica pensando, será? Isso é incerteza de raiz, entendeu agora? Não que você já tenha feito ou ache que um dia irá fazer, mas será que não possui mesmo essa tendência? Pergunta dois, você, certamente, já sentiu vontade de matar alguém, só não o fez (se é que não o fez) porque ficou com pena do infeliz, s ou n, e você  agora tasca-lhe o s, mas alguém lá dentro te pergunta, ou melhor, te denuncia, não terá sido por medo de todas as consequências que teria de enfrentar? Neste caso, matou, só não enfiou a faca, certo? Você me diz que esqueceu, não sabe mais onde paramos, não se lembra de nada, nem do que disse ou do que deixou de dizer, e chama isso de amnésia? Pois sim...

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  • Mil Tsurus - Yasinari Kawabata
  • Mundos Sujos - José Latour
  • Coronado - Dennis Lehane
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