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Ok?

sexta-feira, 29 de abril de 2022

"Se não tiver ninguém olhando, você faz?"

Escolha a sua resposta: 1 - SIM 2 - NÃO 3 - DEPENDE Tem muita gente que acha que a Ética está sempre de tocaia pra dar uma rasteira.

quarta-feira, 26 de janeiro de 2022

Eu sou a favor. E você?

Faz tempo eu li uma entrevista de um intelectual de direita (ainda tem, são raros, mas ainda tem alguns bons). Nessa entrevista, o intelectual comentava sobre os erros que a maioria das pessoas comete ao considerar posições tradicionalistas e religiosas como exclusividades da direita. Ele mesmo confessou que não era a favor da proibição do aborto. Disse que na sua opinião a sociedade é que não estava preparada para uma mudança tão radical como aquela. Frente a uma oposição feroz talvez tivesse que voltar atrás na medida, o que seria a pior de todas as alternativas. Pensei, matutei, dei a ele uma certa razão, depois tirei… Minha vontade foi a de enviar-lhe um e-mail curto e grosso, mais ou menos assim: “Talvez aí resida a raiz de nosso caráter conciliador, imobilizante, pacifista engana-trouxa. Fala de uma vez se você é contra ou a favor do aborto e em quais circunstâncias!” Naquela noite fui dormir cedo. Acordei no dia seguinte todo picado, de mosquito, viu…?

domingo, 21 de novembro de 2021

Soberba, Cobiça, Inveja, Ira, Gula, Preguiça, Luxúria...

Na vida, nem tudo é pecado, só o que te dá prazer incontrolável.

quinta-feira, 24 de dezembro de 2020

FOTONOVELA - FERRO NA BONECA













FOTONOVELA:

FERRO NA BONECA






Autor: Fernando L N de Souza - fn

Curitiba - PR

Março / 2004





























PRIMEIRA PARTE


UM


Dr. Leme disse a ela algo mais ou menos assim: “Você esquece que é menor, dimenor como gostam de falar. Se alguém estiver atrás de um culpado, não é você que vai pagar o pato.” Mesmo assim ela continuou exibindo os dentinhos mais brancos que ele jamais vira em toda sua vida. Jurou que era maior de idade. Chegou a mostrar de relance um documento. Depois pulou para o seu colo, na frente de todo mundo.

Se ele ficou sem jeito? Imagina... Fátima passava a mão no rosto de Dr. Leme e sorria para a sua falta de graça. O bar estava cheio nessa hora. Alguns olhavam - uma menina tão novinha, um cara já maduro. Jardel, o mendigo que pedia de mesa em mesa uma “ajuda simbólica”, ensaiou umas palmas e logo estavam todos aplaudindo, assoviando. Dr. Leme não tinha mais como disfarçar. Nem sabia onde enfiar a cara.


DOIS


Passaram uns quatro, cinco dias sem se ver. Dr. Leme ficou meio puto da vida porque achava total falta de consideração. Sua criada, uma negrinha que o atormentava há mais de vinte anos, foi cruel: “Falta de consideração é o caralho! Você tá é com saudades da menina. Tá com saudades das safadezas que ela deve ter feito com você.” Dr. Leme preferiu não discutir: “Esses negócios que envolvem ciúmes e amores desprezados não raro terminam em tragédias.” Ajeitou o pijama na frente do espelho. Orgulhoso, sorriu para dentro como se estivesse no Tribunal do Júri.


TRÊS


Fátima apareceu de óculos escuros, cabelos presos. O advogado-chefe estava de saída. Deu umas ordens, só por dar. Como a maledicência não conhece limites,todos no escritório achavam que Dr. Leme tinha muito o que fazer naquele final de tarde.


QUATRO


Não era bem assim. Fátima e Dr. Leme ainda não se conheciam por inteiro. Foram passear na beira da praia. As gaivotas mergulhavam e os dois quase ouviam os gritos dos peixes. Dr. Leme perguntou o que acontecera e Fátima chorou. Tirou os óculos, esfregou o olho roxo e disse um “não foi nada”, virando os olhinhos, como poucas atrizes conseguem na tela. Dr. Leme segurou sua mãozinha e esteve a ponto de oferecer a casa como refúgio, mas lembrou de alguns problemas que iria enfrentar. Sugeriu que passassem a noite no hotel familiar que ele conhecera há pouco tempo. A menina soltou uma gargalhada que desnorteou o advogado.


CINCO

Fátima não media atitudes, era ambiciosa e falava o que lhe vinha à cabeça. Mas quem não é assim aos “sei-lá-quantos-aninhos”? Para tudo e para todos, Dr. Leme tinha uma desculpa na ponta da língua. Quando a conversa era sobre Fátima e sua inconstância, ou inconsistência – como queriam alguns de seus velhos amigos –, os olhos da velha raposa brilhavam, assim como a saliva no canto da boca.


SEIS


Tanto insistiu que acabou convencendo a menina a entrar pela primeira vez na vida em um teatro. Era uma comédia, estrelada por atores da TV, tendo à frente um louro, dizem que fresco e debochado. Fátima só foi por causa dele.

Sentaram-se no balcão, literalmente às moscas. Não havia ninguém: nem à frente, nem atrás, nem de um lado, nem de outro. Parecia o paraíso depois do pecado original.


SETE


Dr. Leme segurou a mão de Fátima e beijou-a suavemente. Quando todas as luzes se apagaram, Dr. Leme se achou romântico, como há séculos não ficava. Esqueceu sua voz de barítono, de tantos e tantos plenários e anfiteatros, olvidou sua condição de membro titular do conselho de direitos humanos, desprezou a carteirinha da OAB, execrou os vaticínios de sua criada ciumenta e soltou um sonoro: “Faz um boquetezinho, amor?”

Saiu tão alto que atores e atrizes arregalaram os olhos, ficaram um minuto em silêncio reverencial e depois começaram a rir convulsivamente, interrompendo a peça. O tal louro debochado e rico deitou no assoalho sujo do palco, gargalhava mais alto do que todos os demais, sacudia os braços e as pernas como se estivesse tendo um ataque. Parece mentira, mas em seguida acenderam-se todas as luzes da platéia e, apesar da balbúrdia, lá estava a cabeça de Fátima deitada no colo de Dr. Leme, empenhando-se a fundo na arte de sugar certos favores.


OITO


No intervalo do primeiro para o segundo ato, ouviu não sabe quantos “Sem vergonha!”, “Canalha!”, “Pior que ele é a menina com essa carinha de santa”. Três mulheres olharam friamente para o casal, que continuava de mãos dadas. A mais velha se espantou: “Olha se não é o ex-marido de Izilda?”. As outras queriam saber que Izilda era aquela. A mulher explicou, espetando dois alfinetes negros nos olhos de Dr. Leme: “A Zildinha, aquela que morreu de desgosto faz uns dois ou três anos. Ele a deixou para viver com a empregada! Cafajeste!”


NOVE


Como de costume, Dr. Leme compareceu à faculdade de direito na manhã seguinte. Abriu seu fichário e a boca acompanhou esse movimento para dar um tonitruante “boa dia a todos”, mas lá do meio da sala uma jovem estudante interrompeu o ritual, perguntando o mais alto que sua voz alcançava: “Professor, é verdade que Sócrates teve que se matar por ser acusado de corromper a juventude ateniense?” Ia responder, mas algum engraçadinho colocou no último volume aquela marchinha de carnaval, que falava em chupeta e em mamar... “Mamãe eu quero...”, qualquer coisa assim.


DEZ


Não demorou vinte e quatro horas e a sórdida campanha que armaram contra Dr. Leme ganhou as ruas. Os muros da faculdade amanheceram pichados: “Cicuta nele!” era o comando. O Conselho Universitário a muito custo convenceu o emérito professor-doutor Leme a pedir afastamento, antes que a situação se agravasse. Havia, no entanto, uma ponta de orgulho por ter sido comparado ao sábio filósofo grego: “Antes morrer como Sócrates do que viver como Xantipa”. Soltou essa frase quando pisava as escadarias de mármore da secular e inadimplente faculdade.


Mas o pior ainda estava por vir. Fátima fora conduzida à delegacia de proteção ao menor e Dr. Leme recebera intimação para prestar esclarecimentos. As acusações? Atentado violento ao pudor, corrupção de menores, pedofilia... para dizer o mínimo.


ONZE


O delegado Otaviano era apaixonado por Nélson Rodrigues. Dizia para quem quisesse ouvir que qualquer escritor brasileiro, vivo ou morto, diante de Nélson, não passava de um cachorro vira-lata: ”Sarnento, entendeu? Vira-latas, sarnentos, invejosos.Todos eles! Sem exceção!”

Dr. Leme achou que também já estava sentindo aquele velho e brasileiríssimo complexo, mas o delegado se interessou pela estória com evidente morbidez. Quis saber se a menina era virgem, se Dr. Leme chegara ao orgasmo durante o sexo oral no teatro, se... Falava baixinho, os lábios quase colados ao ouvido de Dr. Leme, que nessa hora imprópria sentiu cócegas e caiu na gargalhada.

DOZE


O homem virou bicho, achou aquilo uma falta de respeito. Xingou Dr. Leme: “Imoral! Tarado! O quê que você tá pensando, seu pederasta de merda?!”, e resolveu dar umas porradas no venerável causídico. Apavorado, Dr. Leme olha para cima, vê o braço peludo e a mão gorda do delegado descendo em sua direção. Era inevitável: em poucos segundos o rosto de Dr. Leme deveria estar inchado, os olhos roxos, o nariz sangrando, os lábios murmurando um falso arrependimento.


TREZE


É nesse instante que entra em cena a figura esdrúxula de um escrivão franzino, calvo desde os quinze anos, nariz e olhos de águia, o indefectível Zé da Pena. Sua mão ossuda agarra no ar o braço do delegado e aconselha: “Calma, Otaviano. Os tempos são outros, os tempos são outros...” O delegado bufa, grita palavrões assustadores, diz que vai trazer um leão de circo pra comer os presos. Mas acaba recuando. Considerava o escrivão um sujeito falso, hipócrita, desprezível: “Escuta, Zé, você é um medroso, um cagão! Um cagão, está me ouvindo?”, dizia e repetia com ódio, soltando fogo pelas ventas nos corredores da delegacia.

Contudo, reconhece no escrivão um personagem – perfeito, bem-lapidado – de seu ídolo maior. E isso tirava o delegado do sério.

Vai daí que o rosto de Dr. Leme não virou uma pasta de carne e sangue, seu nariz não foi nem um pouco quebrado, os olhos continuaram com as mesmas olheiras que Deus lhe deu – e só com elas. Apenas seus lábios murmuram o tal arrependimento, falso como a postura humilde de monge tibetano, que o advogado agora tenta empurrar para a seleta platéia.


QUATORZE

Não muito longe dali, Fátima diz que não está acostumada com essa vida de detenta e que não fez nada pra passar a noite na Febem. Está presa numa cela úmida, um cubículo malcheiroso a bem dizer. As outras meninas riem e caçoam dela. Mediante alguns favores, consegue mandar um bilhete para o mendigo Jardel, pedinte oficial daquele bar em que Fátima e Dr. Leme iniciaram sua desditosa aventura.


QUINZE


Graças a um habeas corpus, concedido durante a madrugada por um desembargador amigo, famoso no mundo do crime, Dr. Leme foi libertado sem ao menos prestar depoimento. Saiu dali direto pra casa. Estava louco por um banho de banheira para em seguida se atirar na cama, não sem antes pedir à sua negrinha, companheira e amiga de tantos anos, um chazinho de hortelã e, quem sabe, umas bolachas de mel. “Bolacha, você vai levar é nessa cara, seu filho da puta!”, disse a negrinha sem dar ouvido às súplicas de Dr. Leme. Tentou ficar quieto e não responder, mas a carência falou mais: “Vem cá, vem... Tá com ciúmes do Lelé, tá?”


DEZESSEIS


Pra quê?! A negrinha subiu a serra: “Ciúmes de você, sua galinha velha?! Fique sabendo que eu já contratei um advogado, é aquele mesmo que te odeia e vive te perseguindo. Ele vai entrar com um processo e provar que você vive maritalmente comigo há mais de vinte e cinco anos. Tudo o que você tiver, eu levo a metade, tá ouvindo?”

Dr. Leme arregalou os olhos, mas não se deu por vencido: “Metade de tudo o que eu tenho? Essa é boa... Sou dono de um escritório falido, uma casa hipotecada que tá na mão do banco e uma cátedra na faculdade de direito. E só.”

A negrinha se mostrou esperta e decidida: “A casa e o escritório, você que fique com as dívidas. Agora, eu quero a metade dessa cátedra! E, data venia, eu não me chamo Eunice se não deixar você com uma mão na frente e outra atrás.”

Dessa vez, Dr. Leme aguentou firme: não riu nem disse nada. Ficou apenas pensando: ”Gozado, depois de trinta anos juro que não sabia que o nome dela era Eunice.”


DEZESSETE


Desmaiou de cansaço, sem bolacha, nem chazinho, nem suco de maracujá pra acalmar os nervos. Sonhou que Fátima estava se afogando e não tinha onde se segurar. Ele nada em sua direção e a duras penas consegue salvá-la. Na praia, a menina está deitada na areia, de boca aberta, , inconsciente. Ele olha aquilo e não resiste: dessa vez, toma a iniciativa e com todo o cuidado repete a cena do teatro: introduz o sexo na cavidade bucal da menina. De repente, a garota leva um susto e acorda. Cerra os dentes com força. Dr. Leme grita como um desesperado, tudo isso no sonho. Acorda aos berros: “Lá se foi a cabecinha, lá se foi a cabecinha...” Abre os olhos e a seu lado a negra Eunice avisa que tem alguém batendo na janela: “Parece um mendigo.”


DEZOITO


Dr. Leme ficou na dúvida se devia ou não mandar Jardel entrar em sua casa. Tá certo que o pobre homem trazia notícias de Fátima, mas, que diabos, era um mendigo! Resolveu atendê-lo no portão, de robe e chinelinho de pompom. Jardel achou normal, porque não costumava entrar na casa das pessoas a quem pedia uma “ajuda simbólica”. Entregou para Dr. Leme um pedaço de papel amassado, onde Fátima tinha escrito com sua letra de princesinha mimada: “ESTOU NA FEBEM. VENHA ME TIRAR DAQUI IMEDIATAMENTE OU EU NUNCA MAIS OLHO NA SUA CARA”


DEZENOVE


Jardel se despediu solene, levando a ajudinha e dizendo: “Conte com a minha discrição, doutor. Minha boca é um túmulo.”

Dr. Leme estava pronto pra sair rumo à Febem quando o telefone tocou. Era a tal velha amiga da falecida Izilda, que o insultara no teatro. “Lembra de mim, seu cachorro? Sou a Helenice, amiga da sua mulher. Você não me engana, vive maritalmente com essa menina de cor há mais de 25 anos. Não é de hoje que você é um peidófilo safado”, disse ela aos berros. Dr. Leme não estava a fim de arranjar novos inimigos gratuitos, mas dessa vez não se conteve: “Você é que é peidófila, sua porca! Sempre foi, então não me lembro?” Eunice ria de dobrar.


VINTE


Dr. Leme entrou na Febem meio puto da vida. Deu de cara com um sujeito que se dizia responsável pela triagem. Sôfrego, ele agarrou a carteirinha da OAB de Dr. Leme, como se fosse um cartão de banco. Quando viu que não era, cuspiu na escarradeira, que vinha a ser a lata de lixo, por incrível que pareça, a única nas redondezas, e perguntou o que é que o doutor queria. Dr. Leme meteu o dedo indicador no peito do cara e começou a vomitar aquele batido: “Sabe com quem está...?” Mas nessa hora a sirene tocou e veio a informação: uma menina de nome Fátima liderava a rebelião, a quadragésima-nona nos últimos vinte e dois dias. Dr. Leme fez a conta de cabeça. Gostava de matemática desde pequeno.


VINTE E UM


Um exagero, sem dúvida: 2,227 rebeliões por dia! Não era possível... Estava pronto pra reclamar, entrar com uma petição exigindo recontagem, quando, infelizmente, chegou a imprensa.

Tiraram umas fotos da fachada, o câmera enquadrou a portaria, depois meteram o microfone na cara do funcionário, perguntando que Fátima era aquela. Aí um repórter cutucou a estagiária e apontou com os beiços para Dr. Leme. Na mesma hora todos ligaram o nome à pessoa: “É o Dr. Leme?! Aquele do boquete em público?”


VINTE E DOIS


Nessas horas, um sujeito experiente, com mais de não-sei-quantos-anos de banca, acostumado com as piores rasteiras que o mundo jurídico pode aprontar, um sujeito que já escorregou em mil-e-uma cascas de banana, e depois se levantou incólume, que já passou por cima de corpos, de sentimentos e arrependimentos , um sujeito com toda essa folha corrida, melhor dizendo, com essa puta vida pregressa, currículo invejável, nessas horas é que o camarada sai do sério: “Velho depravado é teu pai, sua filha da ...!”, nem chegou a completar a frase e partiu pra cima da estagiária, que tentou se esconder atrás do fotógrafo, que tropeçou nas pernas do funcionário, que por sua vez distribuiu porrada pra tudo que é lado, só pra pôr ordem no galinheiro. O barraco estava armado e Dr. Leme, como se dizia antigamente, passou recibo.


VINTE E TRÊS


O chefe dos inspetores chegou de maca: um olho roxo, a cabeça enfaixada, os braços caídos e um ar de quem acaba de ser pisoteado na plataforma da Central, às seis da tarde de uma sexta-feira pré-carnavalesca. Mesmo assim ainda teve forças para virar ligeiramente a cabeça na direção de Dr. Leme e perguntar: “Esse aí não é o cara da chupetinha?”

A situação lá dentro estava séria, fugindo do controle. Fátima era a nova líder. Na hora que resolveu rodar a baiana não teve uma interna que não a acompanhasse. Parecia uma daquelas revolucionárias do Século XIX, quem sabe uma Rosa de Luxemburgo ou uma Anita Garibaldi, mas, na verdade, Fátima só não queria dormir com pulgas, baratas e muquiranas de todos os tipos. Porque Fátima podia ser tudo, gente, mas era uma menina limpinha, isso ninguém podia negar.


VINTE E QUATRO


Chamaram a polícia e adivinha quem chegou? Ele mesmo, o delegado Otaviano, seguido de perto por seu fiel escrivão - o falso, o ossudo, o dissimulado Zé da Pena.

A estagiária correu na direção dos dois. Apontava para Dr. Leme e em prantos berrava: “Tentou me agarrar... Tentou me agarrar na frente de todo mundo!”

“O senhor por aqui, Dr. Leme? Não perdeu a mania de avançar em pobres meninas virgens?” – disse Otaviano.

Aí foi uma gargalhada geral. Riu o chefe da triagem, gargalhou o repórter, o fotógrafo quase teve um troço. Até o inspetor deitado na maca pedia: “Parem com isso, pelo amor de Deus. Só dói quando eu rio.”

A estagiária, que se chamava Vanessa Mendes, ficou meio sem graça, mas logo arranjou um jeitinho de se aproximar do delegado e falar no seu ouvido: “Virgem também não... né, Tavinho?”


VINTE E CINCO


Na hora de eleger uma comissão para dialogar com as autoridades, Fátima declinou do convite: “Já estou cansada de tanta bagunça. Eu quero é ir embora daqui.”

A decepção foi geral, mas Fátima tinha carisma e dominava a plebe ignara. Escolheu ela mesma três meninas que já estavam naquela faixa cinzenta, “dimenor” pra maior de idade, e deu as instruções:


  • Retirar a tropa de choque

  • Substituir os inspetores

  • Comprar colchões novos e um spray de inseticida por ala

  • E, finalmente, liberdade para Fátima!


A maioria esmagadora preferia trocar o inseticida por café com leite no lanche da tarde, mas Fátima se recusou a colocar em votação, dizendo: “Tá pensando que isso aqui é o quê? Câmara de Vereadores?! Não tem votação porra nenhuma. Vai lá e tá acabado...”


VINTE E SEIS


Foram. A tropa de choque topou recuar, o administrador prometeu comprar os colchões e os inseticidas, além de trocar os inspetores em cargo de chefia e estudar o pedido da líder.

Quando voltaram com a notícia, a alegria foi geral. Carregaram a pequena Fátima nos ombros, pularam, dançaram, fizeram um esporro daqueles noite adentro e, só pra não perder o hábito, saquearam a despensa. Como diria a madre superiora, a turminha é foda!


VINTE E SETE

Tinha mais gente no portão da Febem do que dinheiro em bolso de turista americano. A maioria era de curiosos, gente do bairro que ensaiava um coro: “Sossego ninguém tem! Fora com a Febem!”

Delegado Otaviano olhou para o cinegrafista da TV, seu velho companheiro de porres inenarráveis e mandou: “Mas que caralho é esse, Matias? Vão fazer uma passeata?”

“O doutor ainda não viu nada... – disse uma funcionária de uns centro e trinta e cinco quilos em cada perna – Quando eles se emputecem pra valer dão tiro pro alto, jogam bicho morto aqui pra dentro, só vendo...Terça passada jogaram um urubu morto, enrolado na camisa do Flamengo.”

“É crime ecológico – gritou o delegado – Traz a tropa de volta!” Dr. Leme não se conteve e gritou um “não!” tão alto que Otaviano interpretou no mau sentido. Agarrou Dr. Leme pelo colarinho e quis saber se ele achava que mandava alguma coisa na porra daquela zona. Esteve a ponto de enfiar outra vez a mão na cara do advogado, quando Zé da Pena novamente apaziguou: “Calma, Otaviano, o fotógrafo tá tirando umas fotos e a estagiária tá de gravador em punho. Vão te prejudicar, vão te prejudicar...”


VINTE E OITO


A tropa de choque não veio, mas o tenente Maia, comandante do batalhão da PM, saiu de cassetete em punho, no meio da multidão, distribuindo a gente sabe o quê. Matias, o cinegrafista, gravou tudo, chegou a pedir para o tenente repetir uma cena que tava meio tremida, no que foi prontamente atendido, tendo em vista o prestígio do canal em que Matias trabalhava.


VINTE E NOVE


Finalmente, depois de marchas e contra-marchas, a paz voltou a reinar naquela unidade da Febem, mais conhecida como “ferro na boneca”. A rebelião se desgastara como notícia, cansando leitores e espectadores, ninguém havia morrido ou se ferido gravemente, de modo que os jornalistas já tinham partido pra outra.

Trouxeram Fátima algemada e a entregaram nas mãos do delegado Otaviano, que a recebeu com um sorriso e uma interrogação: “Essa aí é mesmo a tal da Fátima? A vítima? A garotinha indefesa?”

Diante da afirmativa, emendou: “Mas a menina é uma baita de uma mulher, sô...Gostosa!” E passou-lhe a mão na bunda.


TRINTA


Otaviano insistiu em levar Fátima até a delegacia. Dr. Leme, que não estava disposto a perder a menina para um tira de quinta categoria, exigiu ir junto no camburão. Nessa hora, o enigmático Zé da Pena soltou mais uma de suas considerações filosóficas: “Acho que é a primeira vez que um advogado de renome exige um camburão para ir à delegacia.”


TRINTA E UM


Otaviano tentou atrasar o lado de Dr. Leme, e este tentou empatar a foda de Otaviano. Foi briga de cachorro grande, como diria o mendigo Jardel. Fátima mais parecia árbitro de partida de tênis: ora olhava para um lado; ora para o outro. Piscava os olhinhos e suspirava, estava nas nuvens.

Depois de muito rosnar, Otaviano disse a Dr. Leme: “Escuta, você está livre para fazer o que quiser da porra da sua vida, mas deixe a guria comigo ou eu acabo metendo uma bala bem no meio dos seus testículos.”

Ato contínuo, Dr. Leme, que de trouxa não tinha nada, começou a berrar, ficou vermelho e berrava, com uma vozinha fina que Fátima jamais ouvira: “Peninha, Peninha, socorro! Este homem está querendo me matar!”

Peninha, que vinha a ser o digno escrivão Zé da Pena, não gostou da intimidade. Encarou Dr. Leme e disse baixinho: “Seja homem, sujeito! Não vê que até a menina tá te olhando torto?”

E estava. Tanto estava que Fátima não demorou a se engraçar pro lado de Otaviano, passando a mão no seu rosto e dizendo que não era mais “dimenor”, perguntando se ele queria ver seus documentos ou se o delegado é que estava pretendendo mostrar os dele.

O escrivão não perdoou. Olhou duro nos olhos de Dr. Leme e disse: “Tá vendo só...?”

Dr. Leme, que de liberal não tinha nada, chegou bem perto da menina Fátima e disse, com sotaque de italiano da novela das oito: “Ma che? Tu sei una putana?”

Só ele falava a sério. O resto caiu na gargalhada.


Otaviano deu um berro chamando o carcereiro. Adivinha quem apareceu na sala, cheio de mesuras e salamaleques. Ele mesmo, Jardel, o falso mendigo. Só que agora não pediu nenhuma ajudinha simbólica: era um tira, o filho da puta!

Todos, inclusive Jardel, olharam para Fátima quando Dr. Leme perguntou se ela já sabia de tudo.

Estava lixando as unhas e nem pensou na resposta, que saiu meio sem querer, uma expressão da moda que não diz nada, mas que as garotas usam e abusam: “Com certeza...”, disse ela, acentuando o “r” mineiro.


FIM DA PRIMEIRA PARTE


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FOTONOVELA


SEGUNDA PARTE


UM


Todos se lembram que a grande surpresa foi descobrir que o mendigo Jardel ocupava o cargo de carcereiro na delegacia de Otaviano. Pois bem, o que ainda não foi dito é que a discussão entrou madrugada a dentro. Otaviano, aos berros como sempre, queria saber se Jardel era um mendigo-carcereiro ou um carcereiro-mendigo. Segurou o queixo da sua nova musa, a menina Fátima, e disse: “É uma questão filosófica, tá entendendo, minha putinha? Preciso saber o que é mais importante na vida dele: ser mendigo ou carcereiro da delegacia.”

Fátima nunca entendera nada de filosofia, mas quanto a ser chamada de putinha na frente de todo mundo, isso a deixou fora de si. Pulou no pescoço de Otaviano e agarrou sua gravatinha borboleta. Gritava: “Escutaqui, seu adorador de Nélson Rodrigo, putinha é a sua avó, tá entendendo agora?”

Foi preciso que o escrivão Peninha, ou melhor, o apaziguador Zé da Pena, agarrasse a menina e dissesse no seu lindo ouvidinho juvenil: “Não é Rodrigo, é Rodrigues... Não troca o nome de novo que ele te mata, menina!”

Depois, esse mesmo Zé da Pena, segurou Otaviano pelo braço e disse: “Doutor, esqueceu que Jardel é nosso informante? Informante e não mendigo, entendeu, Otaviano? É de uma fidelidade canina, e além disso conhece todas as meninas daquele bordel que eu te falei...Puteiro é com ele mesmo.”

DOIS


Os dias se passaram sem novidades. Foi aberto um processo contra o famoso causídico Dr. Leme, agora obrigado a desativar momentaneamente seu escritório por falta de clientes corajosos. A menina Fátima foi morar na casa de uma tia, que o delegado Otaviano entendeu ser de confiança.

Dr. Leme ia visitá-la todas as noites, logo depois que o delegado saía. Fátima e sua tia não deixavam que ele passasse da porta da rua. A menina o recebia de camisola transparente e dizia no seu ouvido: “Pensou que ia ser fácil, não é? Tá me achando com cara de putinha também?”

Dr. Leme negava, dizia que pelo amor de Deus não era isso. Aí Fátima segurava a sua mão e a encostava em seus pequenos seios empinadinhos. O advogado ia à loucura, mas nessa hora a menina Fátima corria para dentro e sua tiazinha colocava o corpo na porta, um corpo avantajado sem dúvida, que barrava instinto e desejo, que vinham a ser a mesma coisa, oras...


TRÊS


Isso aconteceu durante uns dois meses seguidos. Religiosamente, todas as noites, Dr. Leme esperava o delegado Otaviano sair e tocava a campainha. Bolinava os seios da pequena Fátima e depois arrancava o resto dos parcos cabelos na frente da tia gorda.

Já estava cansado daquela história. Uma noite saiu dali tão desesperado que entrou no carro, bateu a porta e pôs-se a gritar: “Puta-que-o-pariu! Eu dou minha cara a tapas se esse delegado filho da mãe não tá comendo a putinha. Ele come e eu só passo a mão nos peitinhos!”

Socou o volante, deu mais uns gritinhos ridículos e logo em seguida sentiu que alguém tocava em seu ombro e dizia: “Muito bonito, não é, Dr. Leme?”

Era o delegado Otaviano em pessoa, ao lado de Jardel e Zé da pena, todos no banco de trás do carro.

“Toca pro distrito...”, ordenou Jardel, o ex-mendigo informante. A noite prometia...


QUATRO


“Tá pensando que isso aqui é camburão da polícia?”, disse Dr. Leme, encarando o ex-carcereiro Jardel. “Tem mais.... – continuou, olhando para os três – Um de vocês passa aqui pra frente que eu não sou motorista de tira, porra...!”

Zé da Pena achou razoável a reivindicação e lá se foi ele para o banco do carona. Otaviano, que já andava meio puto da vida com aquela sociedade indesejada, aproveitou a oportunidade para esculachar Zé da Pena, seu saco de pancadas de estimação, e atingir Dr. Leme por tabela: “Pusilânime... Biltre... Se um dia um rato atravessar na tua frente, vai te olhar com um risinho no canto da boca e é capaz de escarrar no teu pé. Você devia era se chamar Zózimo, o Zózimo da Engraçadinha... Canalha! Devia ser o Zózimo da Pena, aliás, você dá pena, Zé...”

Dr. Leme, que era chegado em jogo de palavras e outros malabarismos verbais e orais, largou o volante e aplaudiu o inimigo. Quase enfiou o carro no poste.

CINCO


O delegado agradeceu todo besta. Parecia um pavão. Afinal, não é todo dia que um homem da lei recebe cumprimentos de um ilustre advogado sob sua custódia...

Quando chegaram à delegacia, chamou Dr. Leme no canto: “Escuta, vamos acabar com essa inimizade boba. Só por causa de uma putinha, uma putinha, tá ouvindo? Não vale as calcinhas que tira...”

Dr. Leme concordou e os dois se abraçaram ali mesmo, na frente de Zé da Pena e de... Mas onde é que foi parar o informante Jardel?


SEIS


É isso mesmo que você está pensando: Jardel, o falso mendigo, era a mais nova vítima a ingressar na extensa lista de apaixonados pela inocente Fátima. Na mesma hora em que deram por sua ausência no Distrito de Otaviano, lá estava ele na porta da garota tocando a campainha e depois dizendo: “Se eles podem, eu também quero... Tira essa camisola que tá calor, benzinho...”

Jamais passara pela cabeça de Fátima que um mendigo malbarbeado, maltrapilho e malcheiroso, tivesse a audácia de sentir desejos por ela. Logo ele, que pedia esmolas, “ajudas simbólicas”, no bar onde ela se sentara no colo de Dr. Leme, pela primeira vez, aliás, a única na vida. Nesse ponto, suspirou. Vai saber por quê...


“Não se enxerga não, Jardel? Vê lá se eu vou deixar um mendigo como você pôr a mão nos meus peitinhos...”, disse ela, com suas caras e bocas de nojo. Sabia ser cruel quando queria...

Imóvel diante de tão segura musa, o máximo que Jardel conseguiu foi soltar um “com certeza...”, mais por admiração e reverência do que por escárnio ou ironia.


SETE


Naquela madrugada, Dr. Leme e o delegado Otaviano selaram uma amizade indestrutível. Estavam dispostos a tudo, inclusive a casar uma grana preta pra saber quem comeria primeiro a doce e lânguida Fátima. Quando Jardel voltou, de cabeça baixa e se encostando nas paredes pra não ser notado, os dois apertaram o informante, carcereiro e ex-mendigo. Conversa vai, conversa vem... e o coitado acabou confessando que também estava um pouco a fim da garota, a musa da Febem em pé-de-guerra. Aperta daqui, aperta dali... e o pobre contou que tinha levado um fora daqueles, que saíra da casa humilhado e que por isso estava assim meio sem tesão de tomar conta de preso naquela noite, com certeza...

Otaviano armou o barraco: “Puta-que-o-pariu, Jardel! Até você?! Já pra carceragem, seu traidor do caralho!” Fino, esse Otaviano.

OITO


Eu sei, eu sei... Muita gente ia preferir que Otaviano dissesse: “Senhor Jardel, sinto-me traído...Me apunhalaste pelas costas.” Mas o que é que vamos fazer? Não se pode mudar uma pessoa assim, sem mais nem menos, pela nossa própria vontade. Otaviano é Otaviano, Dr. Leme é Dr. Leme, Jardel é o ex-mendigo, Zé da Pena é o popular Peninha.

Caráter é algo que vem de berço. Ou não?


NOVE


Com o passar do tempo, os antagonismos foram se radicalizando, tal como acontece nas guerras de verdade, sobretudo as mais estúpidas.

Correu pela cidade que uma menina de nome Fátima, de origem humilde e egressa da Febem Ferro na Boneca, tinha o poder da cura. Curava barriga d’água, espinhela caída, hérnia de disco, até dor-de-cotovelo, vê se pode...?. Claro que era apenas um boato, mas as mulheres, de idades e tipos variados, passaram a frequentar a tal casa, administrada pela tal tia, que tinha sido de confiança do tal delegado. Aliás, a bem da verdade, nem ele, a autoridade em pessoa, conseguia adentrar no bunker de Fátima e suas seguidoras de plantão.


DEZ


Sentindo-se desafiado, Otaviano convoca Dr. Leme, Zé da Pena e o ex-mendigo Jardel para uma incursão devastadora nas hostes inimigas. Os quatro pulam o muro dos fundos e invadem a casa. Jardel se atraca com a encorpada guardiã, enquanto Otaviano agarra a musa virginal, arranca sua camisola transparente, põe a garota deitada de bruços no seu colo e aplica-lhe uma dúzia de palmadas das fortes no traseiro. Fátima grita, esperneia, xinga... Mas, para espanto de todos os admiradores machos (e também das fêmeas subjugadas), quando Otaviano pára, ela implora: “Bate mais, paizinho...Bate mais, pelo amor de Deus.”

Dostoievski tremeu no outro lado do outro mundo;o espectro de Nélson arrematou: “É normal...” Dalton saiu de fininho: proibiu fotografias e que tocassem em suas influências.

Grande, extraordinária suspresa teve Dr. Leme ao ver que lá da área de serviço acenava para ele uma negrinha igual à sua Judith – ou será que era Eunice?


DEZ E MEIO


Peço licença a vocês, meus amigos, para abrir um parêntese nesta minha breve narrativa e contar algo que muito me assusta: tenho recebido uns e-mails estranhos, umas ameaças, uns deboches... No início não dei muita bola, mas depois comecei a ficar de fato preocupado.

Confesso que minha primeira desconfiança endereçou-se a ele (vocês sabem de quem estou falando...) Era natural que eu pensasse assim, tendo em vista seu passado truculento, a maneira como costuma intimidar as pessoas e tal e coisa...

Posteriormente, a linguagem empregada caiu em contradição. Vou explicar melhor: era um conteúdo grosseiro revestido com uma capa de delicadeza. Sabe aquelas pílulas coloridas? Pois é... Por fora, são lindas; por dentro, intragáveis. Ou você engole tudo de uma vez ou vomita só de olhar, entenderam?

Querem saber o que diziam os e-mails?


Aí é que está! Não vou ocupar o precioso tempo de todos vocês reproduzindo ofensas e desinteligências de toda sorte contra este que vos escreve. Só pra resumir, dizem que eu não tenho pegada (escreveram “punch”), que eu tento me aproveitar da Net pra divulgar inverdades, que eu deveria ser preso, pois sou pior que um “hacker”, etc., etc.

O estilo? Bem... O estilo não lembrava nem um pouco Otaviano ou qualquer um de seus amigos. A última das mensagens jogou alguma luz sobre o mistério dos e-mails ameaçadores. Dizia literalmente:


Porco, machista!

Herói de vilões!

Ou vira feminista

ou arrancamos teus culhões!”


O e-mail tinha sido despachado de uma lan-house de péssima reputação e ainda por cima as palavras tinham sido recortadas de links de vários sites.

Sabe de quem eu lembrei? Não, claro que não tem nada a ver com Fátima, nem pense nisso... Não é o estilo da menina. Lembrei de uma pessoa que anda sumida faz tempo: a universitária que encarou Dr. Leme na sala de aula e depois o denunciou, recordam-se? Não posso acusar sem provas... Por isso peço desculpas e solicito que aguardem o desenrolar dos acontecimentos...


ONZE


Quando terminou de dar as palmadas – merecidas no entender da troupe masculina –, Otaviano mandou a garota se vestir e antes de ir embora com os amigos avisou as mulheres que cercavam Fátima, tentando colocar umas pedrinhas de gelo em seu traseiro vermelho: “De agora em diante quem manda nessa casa sou eu, tão entendendo? Eu e mais ninguém!”


Na calçada, Zé da Pena puxa o delegado pelo braço e alerta: “Otaviano, homem não manda em casa nem quando mora sozinho...”

Jardel cutuca Dr. Leme e sussura: “Tá vendo? Tem horas que o Zé incorpora mesmo o finado escritor e deixa todo mundo de boca aberta. O chefe mais que todos...”

Dr. Leme concorda, diz que a frase poderia muito bem ter sido criada por Nélson Rodrigues. Em seguida, aponta para os dois: “Olha lá... Otaviano tá beijando a mão do genial Peninha...”


DOZE


Cada vez mais e mais mulheres entram no bunker de Fátima e se protegem umas às outras. Veio a negrinha Eunice, mudou-se de mala e cuia a tal universitária, de nome ou apelido Sandra Mara, apareceram dezoito meninas egressas da Febem Ferro na Boneca, atrás delas a tal inspetora que era tida como lésbica de carteirinha... Até a implicante Helenice, amiga da falecida Izilda, transferiu-se com suas inseparáveis acompanhantes. Eram mulheres novas, velhas, bonitas, nem tanto, vingativas, doces e complacentes, tagarelas, entediadas... Tinha de tudo.

Por ordem de Fátima, esticam uma faixa no portão da casa:

No amorzinho, nunca mais!”


Querem autonomia, liberdade para amar. Não desejam apenas ser amadas. “Chega de servilismo!”, Helenice berra aos quatro cantos.

Dr. Leme leva a novidade à delegacia. Otaviano grita: “Ah... querem autonomia, amor livre? Estão pensando o quê? Querem mudar de posição? Por mim, tudo bem. Podem vir por cima... Eu não tenho preconceitos...” Era de fato um porco, machista, adepto do pensamento único.


TREZE


Matias, o cameraman da poderosa rede de TV, líder absoluta de mercado, há muitos anos campeã de audiência, tinha sido promovido a diretor de sabe-se-lá-o-quê. Naquela emissora, diretor era o que não faltava. Em visita à delegacia, puxou o amigo pelo braço e quis saber: “Escuta, que porra é essa? Faz dias que não acontece nada nessa estória...Isso aqui parece um túmulo.”

Otaviano concordou e mandou chamar Zé da Pena, Jardel e Dr. Leme para uma pequena reunião de negócios. Explicou, colocando as duas patas em cima da mesa: “Meu amigo Matias, brilhante cinegrafista e agora diretor de sei-lá-o-quê, tá me perguntando por que não acontece nada há dias na estória. Alguém pode me dar uma explicação?” Os três se entreolharam e o popular Peninha mais uma vez pontificou: “Dizem que o autor anda por aí se arrastando... Parece que é um estado pré-depressivo, uma coisa assim...”

“Frescura!, berrou Otaviano. Vai ver o sacana também tá apaixonado pela putinha!”

Não deu outra.


QUATORZE

Matias aproveitou a visita para contar ao seu amigo delegado que a estagiária Vanessa Mendes também já tinha se bandeado para o bunker de Fátima. “Aquela que adora te chamar de Tavinho na frente dos outros, sabe qual é, não sabe?”

Claro que Otaviano sabia, mas desconversou: “Amigo Matias, não sei por que, mas tá me dando uma sensação esquisita, uma dor aqui no ombro esquerdo... Ou vai chover ou é bursite.”

Dr. Leme, que nos últimos dias entrava mudo e saía calado, aproveitou a deixa pra cutucar o antigo desafeto: “Bursite?! Tá pensando que qualquer um pode ter bursite hoje em dia?” e caiu na risada. O ex-mendigo arrematou: “No caso do delegado, com todo o respeito, é mais provável que seja uma ‘burseta’, este mal que tanto o aflige...”

Zé da Pena balançava tristemente a cabeça. Dizia com seus botões: “O cara tá se perdendo... Escreve uns troços machistas, apela para baixarias, e ainda quer que as meninas leiam...e gostem. Doce ilusão, doce ilusão...”


QUINZE

Ao chegar em casa de madrugada, o dia quase amanhecendo, Otaviano apoiou-se na mesa da cozinha e se deu conta de que alguma coisa estava errada naquela história. Em seus trinta e tantos anos de polícia nunca passara dias tão tranquilos, sem revolta de presos, sem assédio da imprensa, sem balas perdidas que sempre acham algum inocente útil pelo caminho.

Aí foi um tal de surgir na sua cabeça imagem em cima de imagem, algumas até fora de foco, mas a maioria bem definidas, coloridas ou colorizadas, de um tempo que poderia não ser tão antigo assim, mas que trazia de volta sentimentos que algum coturno lá de dentro andou pisando e o tapete do tempo encobriu.

Como se sabe, Otaviano não era chegado em certos devaneios. Gostava da coisa direta, objetiva, como nas músicas do Falcão: “Homem é homem; menino é menino; macaco é macaco; veado é veado...”.

O diabo é que malgrado a calmaria, a cabeça andava em um turbilhão nunca visto. Tirou os sapatos, deitou no divã da sala e começou a achar que talvez, quem sabe, pode ser que Zé da Pena tivesse uma pequena dose de razão quando dizia, em tom cavo, profundo: “Otaviano, escuta... Você não engana ninguém, tá ouvindo? O apaixonado é sincero até quando mente.”


DEZESSEIS


Quem pensar que tudo não passou de uma recaída isolada de Otaviano – o delegado-tarado-por-Fátima – pode ir tirando o cavalinho da chuva.

Naquela mesma noite Dr. Leme chegou em casa com sinceras saudades de sua negrinha Ju ( o diabo é que se acostumara a chamar a pobre da Eunice de Judith... Daí para Ju foi um pulo ). Meteu a chave no portão, assobiando Madalena, de Ivan Lins e Ronaldo Monteiro de Souza, talvez a música não seja da excelente dupla, mas isso não vem ao caso. Abriu a geladeira, encheu um copo com leite, deu o primeiro gole e cuspiu na pia. Tava azedo, porra... Como se não bastasse, sentiu-se ainda mais deprê e abandonado ao ver que a cama em que dormiu permanecia do mesmo jeito, desarrumada, colcha e lençol amarfanhados, o braço do paletó do pijama caído em direção ao chão... tudo igual ao que deixara ao sair de casa. Sentiu-se um pouco morto naquele quarto sombrio, o corpo invisível dentro do pijama.

Dr. Leme era um homem prático, raciocínio objetivo como é próprio dos criminalistas. Não fez biquinho pra chorar, mas dormiu com roupa e tudo. Seu último pensamento naquela noite, em que o vento entrava pelas venezianas, sorrateiro, batia portas e janelas longínquas: “Puta-que-o-pariu... Tudo por culpa de um boquete malacabado.”

DEZESSETE


O ex-mendigo Jardel, por sua vez, livrou-se do interminável plantão com a desculpa de que precisava aguçar os ouvidos, pôr as orelhas em pé, reatar seus vínculos com o mundo dos amaldiçoados informantes. Rumou para o indefectível barzinho na orla, o lugar onde Fátima se sentara pela primeira e única vez no colo de Dr. Leme.

Lá chegando, como quem não quer nada, ensaiou o seu pedidozinho de “ajuda simbólica”. Levou uma vaia daquelas. O dono saiu detrás do balcão e não se conteve: “Tu não tens vergonha, ó pá? Todos estão a sabeire que tu és um rapa...!” Era português, o infeliz. Tocou Jardel com um certo rancor, próprio dos benfeitores iludidos.

O ex-mendigo sentou-se em um banco no outro lado da avenida; ficou olhando o mar e suas marolas assimétricas. Não chorou, não se lamentou, não disse nada... nem a si mesmo. Apenas o mundo parecia cada vez mais longe, as palavras incompreensíveis, distantes todas as vozes.

Quando se levantou, seu pensamento foi: “Preciso dar uma mijada, antes que seja tarde...”


DEZOITO


O problema todo, a questão intelectual, ficara mais uma vez com Zé da Pena, o popular Peninha.

Aproveitando a ausência do temível Otaviano, depositou o esqueleto na cadeira reclinável do delegado, acendeu uma cigarrilha e passou o resto da madrugada meditando. Primeiro pensou que precisava urgentemente abandonar aquela vida e se libertar do ódio que sentia por Otaviano e suas frases feitas. Por tabela, também se livraria de Nélson e seus geniais clichês. Mas em seguida teve medo, pavor, de levar um bonde para um distritozinho de quinta categoria, onde assistiria com estupor a violência, a tortura, o desrespeito, tudo isso movido por uma única e preponderante razão, a escassez em tempos de abundância.

Considerou que não raro os problemas da humanidade reduzem-se aos dilemas pessoais. Seu último, e sábio, pensamento, quando o dia amanhecia: “Vou foder aquela garota antes de todos eles...” Mas nessa hora já estava bêbado que nem um porco.


DEZENOVE


Matias, o diretor da poderosa, morava em um pequeno quarto de pensão. Não era uma espelunca propriamente dita, mas não deixava de ser uma porrinha minúscula, malventilada, o banheiro sem janela e uma solidão que não tinha mais tamanho. Só o bairro era bom, quer dizer, diziam que era bom, Matias nunca descobriu por quê.

Naquela noite, a primeira coisa que fez, depois que arrancou as botas e se jogou na cama, foi afastar os maus pensamentos da cabeça. Começou agradecendo a Deus por ter sido em tão pouco tempo promovido a diretor de sabe-se-lá-o-quê. Jurou que nunca iria maldizer o dia em que agradeceu com lágrimas nos olhos àquela abençoada promoção, embora gostasse mesmo de correr segurando uma câmera, no meio desse povo que sabe como ninguém arrumar confusões e maus políticos.

A segunda coisa que o bom Matias fez foi jurar que nunca, nunquinha mesmo, se deixaria enfeitiçar por essa tal de Fátima, uma garota meio sem graça, que ele conhecera na greve da Febem Ferro na Boneca. Dormiu execrando Fátima e todas as meninas do mundo, que não queriam nada com ele.

Seu primeiro pensamento ao despertar: “É hoje que eu como aquela baixinha...”


VINTE


Enquanto isso, no bunker de Fátima, o bicho começa a pegar. Cedo descobrem que o mar não tá pra peixe, portanto é preciso pular cedo da cama pra garantir o almoço de cada dia.

A inspetora que veio da Febem Ferro na Boneca acha que é melhor cada uma sair pelo bairro, batendo de porta em porta, pedindo um serviço de ajudante de pedreiro. Levou uma vaia daquelas...

A repórter da TV achou que era mais fácil ligar para uns amigos que ela conhecia há muitos anos. Só faltou pularem no pescoço dela.

Teve uma que propôs tirar o dinheiro da poupança. Essa foi por todos consolada.

Fátima, por sua vez, disse: “Parem com essas idéias de jerico!!! Vamos todas vestir umas túnicas brancas em cima da pele, sem nada por baixo, e andar pela cidade atrás de donativos.Tal como fazem os monges budistas...Outra coisa, a casa tem uma passagem subterrânea que vai terminar lá no campinho de futebol. Vamos sair e voltar por ela para não assustar as famílias da rua.”

Recebeu uma salva de palmas. E lá se foram elas, de cestinhos de vime em punho, pedindo aqui, aceitando ali...

De tarde, voltaram pra casa sem um puto. A maioria desanimada, carência sem limites, uma vontade louca de chutar o pau da barraca.

Helenice, morta de fome em todos os sentidos, radicalizou: “Pior que não comer é não ser comida. Eu não aguento mais!!!”

Fátima ouviu aquilo e se emputeceu. Olhou Helenice de alto a baixo e mandou legal: “Também, quem é louco pra comer um tribufu desses...?”

As duas se descabelaram, rolaram escada abaixo, cada uma tentando enfiar os dedos nos olhos da outra. Bem nessa hora Otaviano chegou no portão. Olhou aquilo e se espantou: “Deram pra isso agora? Se esfregando em público? Suas lésbicas...!”

Foi um pega-pra-capá de corar cafetinas.


VINTE E UM


Logo depois foi Dr. Leme quem chegou no portão, procurando Otaviano e Peninha, pelo menos essa era a desculpa. No bunker de Fátima e suas seguidoras (com raras exceções, é claro...), os tapas cediam lugar às farpas e rasteiras. A negrinha Eunice, por exemplo, viu quando Dr. Leme chegou. Acenou para ele lá de cima da varanda. Fátima virou-se pra descobrir quem atraía os olhares do nobre causídico e ainda teve tempo de flagrar Eunice no meio do “tchauzinho”. Na hora não disse nada, mas deve ter atachado um luminoso na testa, piscando sem parar: “ciúme-ciúme-ciúme”. Helenice percebeu e a gargalhada que soltou foi de vitória por knock-out.

Fátima pensou com seus botões, ou melhor, com o zíper da calça jeans: “Essa viada dessa pretinha me paga!!! Tá de olho no homem das outras? Vai ver só uma coisa...” Disse a última frase baixinho e a seguinte aos berros: “Eunice, sua porca! Venha já varrer a passagem secreta! A escada tá imunda, porra!” O “porra” foi saboreado ao máximo, esticando todos os fonemas: “p-o-r-r-a!”

Eunice que não era trouxa nem nada, emendou de primeira: “Agora eu não posso, Fá... Tenho que ir na casa do Lelé passar umas roupinhas... Viu como a camisa dele tá amassada, tadinho?”

Dr. Leme examinou a própria camisa com desdém e pensou: “É hoje!!!”. Chegou a esfregar as mãos, sem perceber que estavam todos olhando para ele, o felizardo.


VINTE E DOIS


Otaviano se ofereceu para levar a negrinha Eunice e seu amigo Dr. Leme no velho camburão da delegacia, mas não foi preciso porque o advogado estava com seu automóvel estacionado na frente do bunker. Nessa hora já tinham chegado o escrivão Zé da Pena, o diretor Matias, o ex-mendigo Jardel e mais uma pequena multidão que se formou no portão da casa, sem entender o que estava acontecendo.

A negrinha Eunice desceu as escadas da frente do bunker como uma verdadeira dama. Parecia mesmo uma noiva classe “A”, rumo à igreja idem, no dia do casamento. Com seu olho clínico, Matias cutucou Jardel: “Tem classe, tem classe... Deixa as negas de ‘E o Vento Levou’ no chinelo...” Jardel não se conteve: “Viu que bundinha?!”


VINTE E TRÊS


Eunice estava mesmo mudada, irreconhecível até. Talvez tenha sido o convívio com as amigas no bunker, vai saber... Esperou Dr. Leme abrir a porta do carro para dizer polidamente: “Prefiro ir no banco de trás, se não se importa...” Dr. Leme achou a situação meio esquisita, mas resolveu, depois de tanta espera, não arriscar. E lá foi ele de motorista, mesmo...

Zé da Pena, com uma ressaca de quarta-feira de cinzas, olhos rútilos, babando um pouco na gola do paletó, puxou Otaviano pelo braço: “Essa negra vai levar nosso amigo à loucura... À loucura, tá entendendo, Otaviano? Devia fazer alguma coisa, caso contrário vamos ter que resgatá-lo de um hospício...”

Otaviano achou que já estava na hora de mostrar a Zé da Pena que ele não era o único a psicografar o magnífico escritor: “Zé, escuta... Tá ouvindo? O hospício é a única morada digna de um verdadeiro apaixonado...”

O popular Peninha ouviu aquilo e não gostou. Mediu Otaviano dos pés à cabeça e fulminou, com toda a elegância de um bêbado de berço: “Assim o caminho fica livre pro delegado atacar a princesinha, não é, seu canalha?”

VINTE E QUATRO


Eunice bem que estava com saudades daquela casa em que vivera durante longos anos. Só não queria dar muita bandeira, porque conhecia Dr. Leme como ninguém, não fosse ela a mucama predileta, aliás de cama, mesa e banho. Por isso desceu do carro ainda pisando em ovos: “Nossa, como isso aqui está sujo! Vamos ter que chamar uma diarista...”, disse, passando o dedo no pó que se acumulava nas grades do portão.

Dr. Leme não era lá um sujeito muito ligado nessas coisas, mas concordou imediatamente, porque não queria ver a sua pequena “Judith” abaixada no chão, esfregando... Ou melhor, até que queria, mas por outros motivos. Perguntou com a voz embargada: “Acha que devemos chamar a diarista hoje?” Eunice respondeu sem olhar para ele: “Mais tarde, mais tarde... Por enquanto eu mesma quero passar umas roupinhas.”


VINTE E CINCO

Como era de se esperar, Eunice logo descobriu que seria impossível passar o que não tinha sido lavado. Deu uma bronca daquelas em Dr. Leme, só faltou chamá-lo de broxa, porque “porco”, “sujo”, “relaxado”, “imundo”, isso ele teve que ouvir caladinho. Vai saber por que os conceitos de asseio e limpeza às vezes fazem tanta diferença entre homens e mulheres...

Parece que depois ficou com uma certa pena. Entregou nas mãos de Dr. Leme uma toalha e um sabonete e disse: “Vá tomar um banho enquanto eu ponho a roupa pra lavar...”

O famoso advogado gostou da idéia. Chegou até a pensar em convocar a negrinha para esfregar as suas costas, mas desistiu do projeto; achou melhor não precipitar os acontecimentos.


VINTE E SEIS

Fátima não ficou propriamente magoada com a traição de Dr. Leme. Ficou foi puta da vida, mesmo. Tanto é que logo depois que Dr. Leme e a negrinha Eunice saíram de carro – ele dirigindo; ela sentada no banco de trás, como uma princesa – Fátima ficou tão fora de si que armou o maior barraco pra cima de Sandra Mara, a aluna de Dr. Leme que denunciou a chupetinha na faculdade, lembram? Pois é, começou dizendo que a tal Sandra Mara tinha arruinado a vida de Dr. Leme, e também a dela, pois foi a partir dali que as coisas começaram a desandar. (Nessa hora, Helenice, atrevida como sempre, virou-se pra Fátima e soltou essa: “Menina, tá pensando que a vida é uma maionese caseira, que desanda por causa dos ovos?”) Conhecendo, como todos conhecem o temperamento da ex-líder da Febem Ferro na Boneca, dá pra imaginar o que aconteceu em seguida, dá ou não dá? – no bom sentido, é claro...

Em resumo, mesmo a contragosto, as mulheres do bunker de Fátima tiveram que chamar Otaviano e sua turma pra separar a briga e aplicar um corretivo na malta.

Fátima encarou Otaviano com aqueles dois olhinhos desafiadores, pôs as mãos nos quadris e desafiou: “Vai me surrar de novo, vai?”

Mas o delegado foi supercarinhoso com a pobre menina descontrolada. Passou sua mão gorda e seu braço peludo nas costas de Fátima e a levou para o quarto, dizendo baixinho no seu ouvido: “Não vale a pena se aborrecer por tão pouco. Esqueça quem não te merece e vem com o tio, vem...”

Conhecendo, como todos nós conhecemos, a personalidade do velho Otaviano, dá pra imaginar que as coisas estavam duras para o lado da menina Fátima... em todos os sentidos.

VINTE E SETE

Dr. Leme saiu do banheiro só de roupão, se sentindo um “outro homem”. Fátima era apenas uma longínqua lembrança, uma pirralha abusadinha que não chegava aos pés da sua querida Judith, que agora, depois da bronca, estava mais perto do que nunca. Mas para conquistá-la seria necessário usar de toda a lábia e verve jurídica.

Assobiando um pagodezinho despretensioso, a negrinha cuidava da casa com orgulho. Afinal, aquele cantinho era mais seu do que de qualquer outra pessoa, e Dr. Leme, apesar de se comportar como um galináceo de primeira, no fundo não era um mau sujeito, apenas um pouco destrambelhado e vítima de mulheres sem princípios, pensava ela. Assobia daqui, cantarola dali, e de repente, sem mais nem menos, Eunice ouve a voz grossa de Dr. Leme bem perto do seu ouvido, o nariz e os lábios encostando em seus cabelos: “Ju, cadê minhas cuecas... Eu tô pelado...”

Na hora pensou em se virar e aprontar o maior escândalo. Dizer que Dr. Leme era um cínico, um abusado, que não queria nada com ele nem com homem algum, mas tudo que saiu de sua boca foi uma voz trêmula e abafada: “Pára com isso, Lelé... Se comporte, homem.”

Pronto. O sinal estava aberto. Dr. Leme agarrou sua negrinha por trás e passou a mão nos seus peitinhos, esfregou-se nela, abriu o roupão e desabotoou a roupa de Eunice e foi apertando, apertando... Bem, fez todas aquelas coisas que nós já estamos cansados de saber quais são (“cansados”, no sentido figurado, é claro...)


VINTE E OITO


Não deu outra: depois que Dr. Leme traçou sua negrinha Judith – na verdade, a classuda e sensual Eunice –, foi a vez de Otaviano se atirar com furor sobre a menina Fátima. Parecia um Ferrabrás lambendo os beiços, aquele gigante, com trezentos libidinosos quilogramas, sufocando a baixinha e indefesa menina no chão da sala de jantar.

Sorveu, mordiscou, apalpou, beliscou, ameaçou, xingou de tudo que é nome... Lá pelas tantas, depois de muito bufar e arranhar o rosto de Fátima com sua barba por fazer, Otaviano escuta um grito que jura ter saído bem dali, daquela boquinha delicada e aparentemente inofensiva. “O que foi? Gozou, benzinho?”, disse o delegado. Fátima, que nunca teve as famosas papas na língua, mandou na hora: “Porra, Otaviano...! Esse teu cinto tá me machucando...Você não tinha que tirar as calças, não?”

Mais uma vez o cinto de couro preto e fivela dourada entrava na história, ao mesmo tempo unindo e separando o bizarro casalzinho. Um fetiche? Um amuleto? Símbolo da dominação? Vai saber por que diabos aparecem estes objetos nada metafísicos nas horas mais impróprias da vida...


FIM DA SEGUNDA PARTE


FOTONOVELA


TERCEIRA PARTE


UM



Na primeira visita que Eunice fez ao bunker, Fátima quis saber em detalhes o que tinha acontecido. Eunice levou umas duas horas contando. Envolveu cada gesto de Dr. Leme em uma aura de ternura, aconchego, predestinação: “Fafá, fomos feitos um para o outro...”, dizia revirando os olhinhos e gargalhando por dentro. Fátima, que não era lá muito experiente nesses assuntos, acreditou em tudo. Mordeu os lábios, torceu as mãos, teve vontade de esganar Eunice, mas se conteve e jurou que ia recuperar Dr. Leme: “...Haja o que houver, doa a quem doer, custe o que custar...”

As outras moradoras foram chegando de mansinho, e Eunice achou que era o momento de pôr pra fora uma parte do que engoliu naqueles anos todos de empregadinha. Olhou para Helenice e disparou: “Amiga, você não faz idéia do que aquele homem é capaz...” E aí inventou mil-e-uma safadezas que Dr. Leme teria aprontado, com os dedos, com a língua e ... Bem, com tudo aquilo que Helenice mais desejava na vida.

A “velha Helê” – era assim que as outras a chamavam – pediu: “Conta mais, conta tudo...” Eunice chegou a dizer que se deitou de bruços no chão da sala e que o “insaciável” fez com ela indecências e imoralidades... Mas bem nessa hora, quando a negrinha ia descrever os pormenores, eis que Fátima se levanta resoluta e dá a sentença: “Agora, chega disso!”

Foi a mais veemente e silenciosa vaia que alguém jamais recebeu na vida. Aqui e ali uma expressão de desagrado; olhos úmidos, dentes rangendo. Fátima ainda ouviu uma voz ecoando: “Não se pode nem sonhar nessa casa...”

Helenice resolveu tomar as dores do grupo. Levantou-se, beijou a negrinha e disse bem alto, para todo mundo ouvir: “Acho que você está com a razão. Qual é o homem que vai se contentar em passar a mão nos peitinhos da namorada a vida inteira?”


DOIS


Foi na segunda-feira de manhã que o tenente Maia enviou, através de seu amigo e confidente Matias, uma espécie de convite para que o delegado Otaviano, o advogado Dr. Leme, o escrivão Peninha e o ex-mendigo Jardel fizessem o favor de comparecer ao Décimo-Segundo Regimento, de preferência naquela segunda-feira e, preferencialmente, às dez horas da manhã, para tratar de assunto do interesse de todos.

Otaviano ficou puto. “Porra! Desde quando meganha convoca delegado para depor?”

Não adiantou Matias dizer que era uma simples reunião, Otaviano disse que não entrava em quartel de polícia nem amarrado e que Peninha iria no lugar dele.

“Peninha também tá convocado...”, esclareceu Matias.

“Alto lá, senhor diretor... Só irei por minha livre e espontânea vontade...”, alertou o escrivão.

Acabou que foram todos no carro de Dr. Leme, que vivia nas nuvens depois que soube que a menina Fátima teve uma crise de ciúmes quando a negrinha Eunice contou que transara com ele, Dr. Leme, dois dias e duas noites sem parar. Quanto ao resto da turma, uns arregalaram os olhos; outros lamberam os beiços. Graças a Eunice, Dr. Leme tinha se transformado no atleta do século, logo ele, que dormiu em cima da pobre, cinco minutos depois da penetração.


TRÊS


Entraram no quartel do Décimo-Segundo pontualmente às dez e meia. Otaviano, que era mais direto, emendou de primeira: “Vai logo dizendo que porra de comprimido é esse. É Viagra, é?” Dr. Leme apenas sorriu, enigmático.

No pátio, o tenente Maia esperava os convidados. Cumprimentou um por um, bateu uma continência para Dr. Leme e saiu-se com um “É isso aí, garoto...”, que fez todo mundo cair na gargalhada. Dr. Leme ia perguntar por que o elogio, mas Jardel foi mais rápido: “Tá pensando... Dois dias e duas noites sem tirar é recorde de Guiness. E isso corre mundo.”

Foram todos para a sala do coronel, que estava viajando a serviço. Maia foi direto ao ponto: “Escuta, porra...! Vocês tão ficando loucos? A vizinhança do bunker de Fátima tá ligando pra cá direto. A tia do coronel mora ali em frente e diz que as meninas estão virando uma putas... das rampeiras, entendeu? ... das rampeiras.”

Otaviano se ofendeu, fez que ia tomar satisfações, mas Jardel e Peninha tomaram a frente: “Ô, Maia... Nós não temos nada com isso. Se elas querem dar, o problema é nosso? Desde quando...?”

O tenente não deixou que completassem a frase, emendou de primeira: “É claro que a culpa é de vocês... Sabe aquela tal de Helenice? Tá que não se aguenta. As vizinhas dizem que ela fala o diabo, indecências, coisas do arco-da-velha...”

Dr. Leme, que andava com a língua afiada, não deixou por menos: “Ô, Maia... Bateu a sessão nostalgia? Que arco-da-velha que nada... Aquela tá é com a perereca em chamas...”


QUATRO


Disputaram no palitinho pra ver quem ia fazer o sacrifício de comer Helenice e levar novamente a paz ao bunker. Peninha foi o primeiro a sair. Fez o sinal da cruz, embora fosse ateu de carteirinha. Logo depois saíram Matias e o ex-mendigo, ex-informante e ex-carcereiro Jardel. Em seguida, saltou fora o ten. Maia, que também tinha entrado na disputa. Na final, ficaram Otaviano e Dr. Leme. Quem perdesse ia ter que dar uma completa na veterana, já tinham até combinado os detalhes.

Como diz o ditado, há males que vêm pra bem, Dr. Leme perdeu, saiu dali arrasado, mas com uma missão inadiável. Um a um, todos os amigos o abraçaram e disseram: “Coragem, meu velho...”. Dr Leme foi, disposto a tudo...


CINCO


Telefonou para o bunker e quem atendeu foi a própria Helenice. Dr. Leme deu um “boa tarde” irresistível e ouviu Helenice dizer: “Péra aí que eu vou chamar a negrinha. Dr. Leme cortou: “Não é com ela que eu quero falar. Helenice devolveu: “Então péra que eu vou chamar a Fátima, seu galinha...” Aí Dr. Leme teve que confessar que era com ela mesma, Helenice, que ele queria falar. “Tô indo aí”, disse ele.

Pra quê? Assim que Dr. Leme entrou no bunker a mulher começou a tremer inteira, xingou, desacatou, ofendeu, injuriou, disse cobras e lagartos. Dr. Leme ali, só ouvindo... Como tudo tem um fim na vida, até os gritos de uma mulher histérica, louca por um (você sabe o quê), uma hora tinham que silenciar. Lá pelas tantas Helenice se acalmou. Olhou Dr. Leme já não com tanto ódio, mediu o ilustre advogado, sem banca e sem cátedra, dos pés à cabeça e saiu-se com esta: “O que quer de mim afinal, homem de Deus?” Dr. Leme se aproximou respeitosamente e disse uns negócios no ouvido de Helenice, umas coisas que ninguém ouviu, mas que fez Helenice rir e se sacudir toda, era magrinha, parecia que seus ossos iam fazer o maior barulho na cama...


SEIS

Carregou a pobre para um motelzinho na Baixada, um muquifo que nem banheiro tinha. Helenice olhou aquilo e pôs a boca no trombone: “Escuta aqui, senhor doutor Leme, tá pensando que eu sou o quê?! Pode ir tirando o cavalinho da chuva. Sou mulher de cenários grandiosos... Vai tratando de me levar para a sua casa. Quero deitar na mesma cama onde você abusou da negrinha, seu velho assanhado... Aqui eu não fico nem mais um minuto!”

Dr. Leme considerou a hipótese de meter a mão na cara do tribufu, mas depois achou que teria problemas com a gerência da espelunca. Em seguida, pensou que deveria deixar Helenice ali, presa no quarto, trancada a sete chaves... Mas percebeu que não estaria pagando a aposta perdida. Portanto, tudo o que fez foi abrir a porta do seu magnífico automóvel e oferecer o banco do carona para a aflita dama, que sentou como uma princesa e agradeceu como uma puta: “Anda logo com isso que eu tô louca pra tirar essa roupa e tomar um banho quente com você...”




SETE


A idéia não era de todo má: Dr. Leme iria com Helenice para o banheiro, abriria a torneira de água quente de modo a entupir o recinto com a mais espessa cortina de vapor d’água, daria uns amassos sem enxergar direito a escassez de carne no corpo da veterana e, finalmente, deitaria Helenice na banheira e a possuiria, embora estivesse mesmo com vontade de afogá-la. Depois estaria livre para voltar aos braços de sua negrinha Judith, ou será que era Eunice?

Bem, isto era o que Dr. Leme desejava. Outra coisa, bem diferente, foi o que aconteceu. Até o banho, a posse e o desejo de matar, tudo bem. O problema começou depois do banho, na sequência, no desejo de esticar. Helenice saiu enrolada numa toalha vermelha; Dr. Leme, nu dos pés à cabeça. Molhou o chão do banheiro, o carpete do quarto, a colcha, o lençol e as pernas de Helenice, que se jogou em cima dele. Foi um “deus nos acuda!”. Helenice berrava como uma louca. Os vizinhos bateram na porta, pedindo compostura. Dr. Leme não tinha palavras: “Isso é que dá...”, resmungou.


OITO


O cenário agora não é mais a casa de Dr. Leme. A sequência não é mais o orgasmo de Helenice. Até porque isso já estava ficando cansativo e, de certa forma, repugnante para o público religioso.

Estamos na delegacia. Otaviano cochila em sua magnífica sala; Peninha toma uns tragos em seu cantinho de escrivão; Jardel recebe ilustres visitas na carceragem.

De uns tempos para cá, andava estranho o ex-mendigo. Mudara os hábitos, comprara umas camisas e umas calças coloridas, sapato de bico fino, gravatas italianas, ternos de casimira inglesa... Jardel andava estranho e ninguém sabia a razão. Ninguém, vírgula! O grande cinegrafista e diretor da maior rede de TV do país, Matias, o iluminado, este sabia de tudo.


NOVE


“Pretensões políticas, Jardel quer se candidatar...”, disse Matias no ouvido do escrivão Zé da Pena. “Fizeram uma pesquisa e o candidato ideal do povão é aquele que veio lá de baixo e que já fez de tudo na vida... Jardel tá se achando.”






DEZ


Helenice foi correndo para o bunker contar para as outras mulheres que nunca tinha sido tão feliz em toda a sua vida.

Falava com Eunice, mas olhava para Fátima: “Meninas – disse ela –, esse Dr. Leme não existe! Nunca vi.... O que ele fez comigo, vocês não imaginam...”

Daí em diante parou de falar em voz alta e passou a cochichar no ouvido de Eunice. A negrinha, que já andava meio puta da vida com aquela história, inventou uma desculpa e saltou fora. Helê foi atrás de Sandra Mara, a ex-aluna do ex-professor doutor Leme. Ficou bem uma meia hora narrando em detalhes escabrosos sua aventura com o mais novo furor do meio jurídico. As duas riam muito, nem perceberam que Fátima e Eunice tinham se pendurado no telefone, uma cutucando a outra, como quem diz: “E daí? O que foi que você descobriu?”


ONZE


Quem deu a informação, ninguém sabe. Tudo o que se pode dizer é que Eunice e Fátima voltaram para a sala do bunker com ar de “eleitas”. Era uma coisa tão ofensiva que Helê parou de falar, as mulheres pararam de escutar e Fátima não perdoou: “Helenice, tenho pena de você, amiga.... Mas a verdade tem que ser dita: tudo não passou de uma aposta...”

Claro que aconteceu o que tinha de acontecer: Helenice chutou o balde, armou o barraco, deu de dedo, avançou, babou, bufou...mas de nada adiantou, Fátima e Eunice tripudiavam: “Lelé te comeu pra ganhar a aposta. É chato, mas é verdade...”

O ciúme tem horas que parece que vai explodir a pessoa que o carrega. Visivelmente transtornada, Helenice foi até a cozinha e voltou empunhando o facão inox com cabo de madrepérola. As mulheres abriram a boca, arregalaram os olhos e tentaram segurá-la. A velha e esperta Helê se desvencilhou e disse: “Calma, gente... Alguém sabe onde é que a negrinha guarda as laranjas? Tô louca pra dar uma chupadinha...” Não teve uma que não caiu na risada.


DOZE


Estava em todos os jornais: Jardel, o ex-falsomendigo, ex-informante, ex-carcereiro, ex-apaixonado por Fátima, ex-sei-lá-mais-o-quê, agora aparecia como o grande expert em política econômica. Falava sobre juros, taxa de câmbio, déficit primário e outras baboseiras do gênero como quem fala das baratas no armário da cozinha. De repente, para ele, nada tinha mistério; tudo era de fácil solução.

Pior é que o povo gostava. Onde Jardel ia, lá estava uma corte de puxa-sacos, a imprensa – com microfones, flashes e câmeras sempre a postos – , dizem que pautadas por Matias, agora um fiel assessor do mais novo fenômeno político verde-amarelo. Dizem que foi ele quem apontou para Jardel o caminho da fortuna.

O ex-quase-tudo-na-vida comia e bebia do bom e do melhor, dormia com damas da sociedade, tratava dos cabelos, das unhas – dos pés e das mãos –, fez uma plástica corretiva, passou a frequentar finos restaurantes, boutiques, palácios e academias de ginástica. Chegou a contratar uma personal trainer de fechar o comércio. Mais tarde descobriram que era um travesti, mas Jardel não precisou dizer nada porque já tinha caído nas graças do povo.

TREZE


Matias armou uma entrevista coletiva, onde só os cupinchas podiam fazer as perguntas de praxe. Foi no saguão de um hotel luxuoso, recente palco de uma invasão com direito a tiros, bofetadas, estupros, furtos diversos e outras agressões à pessoa e à propriedade. Os bandidos sequestraram os hóspedes mais importante e os prenderam dentro de um brucutu, desses que carrega valores para os bancos. A idéia era pedir o resgate em euros, pois tanto o real quanto o dólar já tinham perdido o charme, não mereciam confiança. O que aconteceu depois não vem ao caso, mas o fato é que o hotel ganhou as manchetes dos principais jornais do Ocidente, antigo Mundo Livre. Por isso foi escolhido para coletiva de Jardel.

O candidato entrou no saguão, repleto de jornalistas e autoridades, vestido de branco, dos pés à cabeça: sapatos, meias, calça, cinto, camiseta, paletó, brinco... mandou até pintar a barba e os cabelos de branco. Foi uma cena inusitada, até certo ponto chocante, mas que os analistas classificaram como “jogada de mestre” no marketing político.

QUATORZE


Jardel arrancou o microfone das mãos de uma jovem repórter de TV e, diante da platéia estupefacta, saiu-se com essa pérola: “A violência violenta!”

Matias puxou a claque, o pessoal do áudio subiu a música, balões coloridos caíram do teto... Parecia cenário de convenção democrata ou republicana, tanto faz. Só faltaram mesmo as meninas de sainhas curtas, longas botas envernizadas, chapeuzinho na cabeça com o nome do candidato e seu partido. Seu partido? Nem Jardel, nem Matias sabiam de cor a sigla do partido que dava sustentação à candidatura. Era um tal de P ... alguma coisa... Mas isso não tinha a menor importância. Jardel já estava com a equipe de governo quase toda pronta.

QUINZE


Algumas moradoras do bunker de Fátima chegaram a se entusiasmar com a candidatura de Jardel. Sandra Mara foi a primeira a dizer que sentiria o maior orgulho se fosse convidada a integrar a equipe de campanha do ex-falsomendigo. Helenice foi outra. Olhava para Fátima como quem diz: “Tá vendo o que você perdeu, mimadinha? Se tivesse dado, agora tava colhendo...”

Fátima limitou-se a dizer que aquela que ousasse aderir ao canalha poderia se considerar uma mulher morta para o bunker. “E o bunker não é cemitério para hospedar defuntos”, completou com a sua inconfundível altivez.

O que Fátima e suas fiéis amigas não esperavam é que Jardel lançasse uma ofensiva para aliciar as meninas, oferecendo casa, comida, emprego e sexo de graça – sexo, aliás, que ele mesmo se encarregaria de proporcionar, com futuras retribuições em cargos de seu futuro governo. A cobra, decididamente, estava começando a colocar as asinhas de fora, e já viu bicho mais perigoso e traiçoeiro do que uma cobra com asas?

DEZESSEIS

Outro que ficou surpreso, de queixo caído, e pra lá de aporrinhado foi Otaviano. Não que tivesse pretensões a ocupar qualquer cargo no futuro e ainda hipotético governo, não era isso. Otaviano não queria ser chefe de polícia, muito menos secretário ou ministro. O que o delegado não perdoou foi a falta de consideração, o modo como Jardel armou tudo sem avisar ninguém. Deu o bote para a política na hora certa, pegando todo mundo de surpresa. Possesso, Otaviano agarrou o braço ossudo do fiel Peninha: “Zé, escuta o que eu tô te dizendo, se esse filho da puta colocar os pés aqui na delegacia de novo, eu meto a mão na cara dele, na cara, entendeu? Dô na cara dele...na frente dos presos.”

Peninha, que tinha o dom de invocar as ameças do futuro para serenar os ânimos no presente, respondeu: “Otaviano, Otaviano... Jardel vai ser eleito presidente da República. Se você der na cara dele, a tropa de choque acaba contigo. Na hora, Otaviano, na hora...”

O delegado saiu soltando fogo pelas ventas... Foi para o bunker entabular negociações com Fátima. Era preciso fazer alguma coisa antes que a vaca fosse para o brejo (a vaca, no caso, era o animal mesmo, não a pobre menina ou qualquer uma de suas distintas coleguinhas.)

DEZESSETE


Em dez minutos de conversa, e depois de alguns “com certeza”, outros “então...”, e uns três ou quatro “valeu...”, Fátima descobriu a saída: “Otaviano, só tem uma solução. Vamos ter que tirar o Matias da parada... Sem a TV, o canalha do Jardel desmonta.”

O delegado e as outras meninas que participavam da reunião em petit comité concordaram na hora com a esperteza de Fátima. O diabo é que Otaviano logo se lembrou daquela história de amarrar o sino no pescoço do gato e devolveu: “Tirar o Matias até que é fácil... A gente dá umas porradas nele, recomenda umas férias em Arapiraca... Mas e os outros? Vão mandar alguém pro lugar do Matias...”

Fátima olhou Otaviano com certo desdém, mas nada ofensivo. Explicou que se referiu ao Matias como um símbolo, alguém que ocupa um lugar qualquer, mas representa a estrutura, a organização. “Otaviano, quando eu falei em tirar o Matias tava pensando mesmo era na TV que ele representa. Vamos ter que armar uma intriga, fazer umas ameaças, coisas que o Jardel pode falar, entendeu, menino?”

Otaviano ouviu aquilo com os olhos arregalados. Fátima não era mais a mesma. Estava mudada. A doce e ingênua desmiolada tinha se transformado na mais perfeita e adorável bruxinha, cheia de veneno e charme feminino. O delegado não aguentou e, pra comemorar a descoberta de uma “Nova Fátima”, agarrou e beijou a menina: no rosto, na testa, nos ombros, no pescocinho... Helenice, pra variar, azedou o doce romance: “Tava demorando... Começou a sacanagem. Esse homem é um tarado! Vai acabar comendo todas nós...” De um jeito ou de outro, uma hora as pessoas deixam escapar seus mais recônditos desejos. Se até Dr. Leme já tinha sucumbido a seus encantos, por que não o delegado?


DEZOITO


No dia seguinte Otaviano convidou Dr. Leme para armar a intriga que deveria indispor a rede campeã de audiência e o ex-mendigo, ex-informante, ex-carcereiro, ex-tudo-na-vida e agora candidatíssimo Jardel.

Dr. Leme aceitou, é claro, e os dois partiram para o luxuoso hotel que hospedava o ex-cineasta, ex-diretor-de-porra-nenhuma promovido a guru, sua equipe milionária e o candidato líder em todas as pesquisas.

Lá chegando foram barrados na portaria. Mandaram chamar o chefe dos seguranças. Veio ninguém menos do que o tenente Maia, à paisana e com a coronha do 38 sobressaindo no coldre. Maia foi frio, distante, formal... Nem parecia o mesmo de poucas semanas atrás: “O jornalista Roberto Matias e o presidente Jardel não estão disponíveis. Façam seus pedidos por escrito e depositem naquela urna ali”, disse e apontou para um baú imenso junto à recepção do hotel, cheio até a boca de cartas, bilhetes, memorandos, santinhos, recortes, o diabo...

Otaviano por pouco não partiu pra cima do tenente. Dr. Leme segurou seu braço a tempo. Saíram jurando vingança.


DEZENOVE


Na delegacia, Otaviano convocou Peninha para uma reunião de emergência. “Zé, vai lá na carceragem e traz aquele negão de três metros de altura por dois de largura, aquele que já matou quatorze com as mãos, dezoito a tiros, fora as mortes ‘brancas’, com facadas e canivetadas.... Traz ele aqui que nós temos um servicinho pro negão...”, disse o delegado, coçando os bagos.

Peninha ainda não sabia do que se tratava, mas sentiu-se na obrigação de alertar que o tal negão, de nome Rosaldo, mais conhecido pela alcunha de “Alegria de Pobre”, acordara de mau humor naquela manhã, e quando um sujeito como ele acordava de mau humor o melhor era não descer na carceragem.

Otaviano não se conformou: “Zé, não enche o saco! Vai lá e traz o negão que nós vamos dar uma liçãozinha no Jardel, no Matias e no tenente...” E aí contou tudo o que havia acontecido, inclusive o plano de Fátima para armar uma intriga e afastar a rede-campeã-de-audiência do tal candidato-que-não-parava-de-subir-nas-pesquisas.

Peninha olhou com uma certa dose de piedade para os dois amigos, balançou a cabeça e disse: “Otaviano, Otaviano... Não se meta com essa gente. Nem um exército de “Alegrias” pode enfrentá-los. Escuta, nem tudo na vida se resolve no tapa, Otaviano... Quando é que você vai aprender que o Brasil tem dono?”


VINTE

Matias se afastara por uns tempos de suas funções na diretoria da rede de TV para assumir o pomposo cargo de “estrategista de campanha” no popular partido de Jardel. Aliás, a expressão partido de Jardel retratava com fidelidade o verdadeiro massacre que o candidato acabara de promover na legenda. Não sobrou um sequer dos antigos militantes: alguns, fundadores; outros, funcionários encostados... Quem não quis sair por bem, teve a cabeça política decepada. Duros golpes, desferidos com a mão-de-ferro de quem já tinha passado por tudo na vida.

Jardel delegou plenos poderes a Matias, mas pediu que o tenente Maia vigiasse cada um de seus passos trôpegos. Queria relatórios diários; dependendo da ocasião, um de manhã, outro de tarde e um resumo à noite. As desavenças começaram:

1 – Matias contratou uma assessora para cuidar da estética, vestuário e etiqueta do futuro presidente; Maia foi lá e comeu a moça.

2 – Maia indicou uma fonoaudióloga para ensinar Jardel a não comer os “esse”; Matias foi lá, tentou comer a garota, não conseguiu e derrubou de propósito uma jarra de vinho tinto em seu vestido branco.

3 – Jardel achou que precisava de uma manicure de boa aparência que dormisse no serviço. Maia trouxe quatorze; Matias, dezoito . Jardel passou trinta e dois dias nas mãos das meninas. Dizem as más línguas que chegou a dar entrevistas sentado atrás de uma escrivaninha, nu da cintura pra baixo. Contam que duas meninas, inteiramente ocultas, “cuidavam” de Jardel por baixo da mesa.


VINTE E UM


Quando o delegado Otaviano recebeu o bilhete do temível bandido Rosaldo, mais conhecido no mundo do crime como “Alegria de Pobre”, achou que não deveria responder. O escrivão Zé da Pena convencera Otaviano que nem uma verdadeira legião de “alegrias” teria o poder de abalar as doces relações entre a rede e o ex-mendigo.

Mais tarde, recebeu outro bilhete, escrito no verso do rótulo de uma garrafa de cachaça. Dizia o seguinte: “Dezejo negossiar um tezouro que esta em meu poder. Atensiozamente, Rosaldo seu criado.”

Otaviano ficou puto, não com o bilhete em si, mas com os erros de português; “Porra! Antigamente, até bandido sabia ler e escrever... Olha isso aqui, amigo Leme.”

Passou o bilhete para Dr. Leme, que leu e limitou-se a dizer: “Otaviano, nessa altura do campeonato, saber ler e escrever é o que menos interessa... Caralho, o homem tá querendo necociar!”


VINTE E DOIS

O delegado mandou Peninha buscar “Alegria de Pobre”. Assim que o bandidão entrou na sala, Otaviano achou que o meliante estava ainda maior e mais forte, talvez com uns quatro de altura por três de largura. Perguntou ao escrivão: “Zé, vocês estão colocando fermento na ração dos presos?”

O marginal Rosaldo saudou os presentes: “Excelentíssimo delegado, meritíssimo ‘casuídico’, venho por meio desta...” Otaviano acabou com a farra: “Porra, Alegria... Que viadagem é essa? Vai logo dizendo que tesouro é esse que você tem pra me dar!”

Rosaldo disse que não era bem para dar, mas para trocar. O que ele tinha? Um segredo... Um terrível segredo, guardado a sete chaves.



VINTE E TRÊS


O que Rosaldo disse deixou Otaviano, Dr. Leme e Zé da Pena estarrecidos: jurou de pés juntos que em algum lugar inacessível, muito bem escondido, guardava aquele que seria o último trabalho do grande escritor e dramaturgo Nélson Rodrigues. Tratava-se de um manuscrito, cujo título provisório era: “Ela é como a vida quer”.

Uma novela? Um folhetim? Que diabo de brincadeira era aquela?, quis saber Otaviano. Em seguida, ordenou: “Vai pegar, vai pegar já isso aí...” Mas o temível “Alegria de Pobre” soltou uma gargalhada fininha e meio esquisita. Depois disse que só entregaria o manuscrito em troca da sua liberdade.

Otaviano chegou a levantar a mão pra bater em Rosaldo. Novamente o escrivão segurou seu braço: “Calma, Otaviano... Esse nego te mói de porrada!”

O delegado repensou a correlação de forças e concluiu que era verdade. O meliante “Alegria” era capaz de surrar os três com um dos braços amarrado. Resolveu ser compreensivo: “Olha, escuta... “Alegria”, eu não posso te soltar... Você já está condenado a 134 anos e espera mais quatro julgamentos. Se eu te solto, imagina o que é que vai me acontecer...”

“Alegria” deu um muxoxo e saiu-se com essa: “Quem não arrisca, não petisca. Sem liberdade, não há manuscrito. Me levem de volta à cela.”


VINTE E QUATRO


A informação de que poderia haver um manuscrito do grande Nélson nas mãos de um bandido como “Alegria de Pobre” deixou Otaviano enlouquecido. Dia e noite, não falava em outra coisa. Zé da Pena quis ponderar: “Que história é essa de manuscrito? Nélson sempre escreveu à máquina...” Mas Otaviano não queria saber de nada. Se havia uma pequena chance de ser verdade, era nisso que todos deveriam apostar.

A coisa foi ficando cada vez mais enrolada: Rosaldo irredutível; Otaviano enlouquecido. Até que Dr. Leme teve a brilhante idéia de chamar Fátima para seduzir o bandido e sair com a informação sobre o local do esconderijo.

Arrumaram uma cela de luxo, perfumada, com cortinas, cama, armário, chuveiro... Deixaram Rosaldo lá dentro dois dias e duas noites, para não despertar suspeitas. Depois, trouxeram Fátima, toda cheirosinha, de camisola azul e chinelinho de pompom. Antes de descer para a carceragem, disse: “Tô me sentindo a própria Mata Hari...” Dr. Leme levou o maior susto: Fátima estava crescida, madura, gostosa como nunca e, ainda por cima, culta?!. Até Mata Hari ela já conhecia...


VINTE E CINCO

Otaviano avisou que ao primeiro sinal de perigo Mata Hari, ou melhor a ex-menina Fátima, deveria pronunciar a palavra-chave, que todo mundo desceria correndo até a carceragem para socorrê-la. Claro que havia uns microfones e uma microcâmera ocultos, caso contrário, Fátima não teria aceito a missão, nem tampouco Dr. Leme, Otaviano e Peninha teriam deixado ela entrar na cela.

Assistiram à maioria das cenas através de um pequeno monitor preto e branco, de baixíssima resolução, instalado sobre a mesa do delegado. Todos viram quando Fátima entrou na cela, cumprimentou com uma certa frieza o mega-bandido “Alegria de Pobre” e foi se sentar numa poltroninha cor-de-rosa lá no canto do xadrez, quase fora do alcance da microcâmera. Ficaram os três mais escutando do que vendo Fátima dizer a Rosaldo que estava disposta a tudo para conseguir o manuscrito de Ramires. Escutaram com todas as nuances a gargalhada de “Alegria”, nem um pouco indignado com o erro de Fátima. Foi aí que a menina se saiu como uma perfeita Mata Hari: chorou, enxugou os olhos com um lencinho da Minie, disse com a voz entrecortada que estava literalmente perdida, era vítima de uma torpe chantagem. Nessa hora, Otaviano, Peninha e Dr. Leme observaram com nitidez o rosto de “Alegria” se voltar com ódio em direção a câmera supostamente oculta na cela. Daí surgiu a dúvida: “Será que ele sabia que estava sendo vigiado? Qual seria a sua reação? Por que o ódio estampado em seu rosto? Sentia raiva de Fátima ou daqueles que a ameaçavam?”

VINTE E SEIS


O luxuoso hotel ficou pequeno para a milionária equipe de Jardel – o candidato virtualmente eleito, segundo todas as pesquisas de opinião. Matias, Maia e tantos outros chefes, sub-chefes, encarregados, auxiliares, cupinchas, futuro-isso, futuro-aquilo... toda essa gente trouxe assessores, secretários, parentes, paqueras, amantes, de modo que tiveram que mudar para um ginásio de esportes recém-construído e igualmente luxuoso, com seus mármores, granitos e cristais por todo lado.

Por falar em futuro, a rede de TV campeã de audiência preparava um programa-piloto em que Jardel responderia a perguntas de jornalistas (escolhidos a dedo, é claro...), tiraria dúvidas de eleitores, denunciaria os “crimes” de seus inimigos políticos, convocaria as massas para a redenção, enfim, aquelas coisas que a rede sabe fazer como ninguém de quatro em quatro anos.

Enquanto isso, o feijão com arroz era o bastante. Faltava comida? Lá estava Jardel no Ceasa denunciando o desperdício, berrando no microfone: “Isso que vocês estão vendo no lixo, poderia estar na mesa dos pobres com fome nesse país...” Havia um assalto? Lá estava Jardel, de colete à prova de bala, dizendo que quando fosse eleito ia tratar o marginal com a dureza da lei e outras baboseiras que o eleitorado adora. Uma fila no hospital público? Macas no corredor? Gente se esvaindo em sangue? Lá vinha ele, de jaleco. Jardel parecia um Papai-Noel em outubro. Agora, se o Natal ia ser magro ou ia ser gordo, não era problema dele.


VINTE E SETE

Otaviano começou a ficar preocupado quando Fátima e “Alegria” desapareceram do campo visual do monitor. Peninha pensou em descer até a carceragem, mas Dr. Leme lembrou que Rosaldo podia ter preparado uma armadilha, quem sabe usando o lindo corpinho de Fátima como escudo para as suas pretensões sinistras. Otaviano concordou e resolveram esperar para ver o que acontecia.

Durante a primeira meia-hora não aconteceu absolutamente nada, a não ser uns ruídos estranhos, uma fala gutural, uns sussurros... Os três se entreolharam e como os pensamentos impuros falam mais alto, ouviu-se um sonoro: “SERÁ???”, pronunciado ao mesmo tempo por Otaviano, Dr. Leme e Peninha.

Quando já estavam determinados a descer e enfrentar as consequências, Fátima reapareceu diante da microcâmera, arrumando o cabelo e dizendo: “Vocês já podem me soltar. Deu tudo certo...” Em seguida abraçou e beijou “Alegria”, como se fossem amigos de anos.


VINTE E OITO


Quando finalmente Fátima subiu para a sala de Otaviano, algo mais importante que o manuscrito de Nélson parecia interessar ao trio. “O que aconteceu? Ele abusou de você?”, disse Otaviano. “Te ameaçou?”, perguntou Dr. Leme. “Por que sumiram?”, quis saber Zé da Pena.

Fátima fez questão de olhar, medir um por um, de alto a baixo, sem nada esclarecer. Atirou na mesa de Otaviano um papelzinho dobrado e soltou um suspiro, mais ou menos equivalente a: “Não era isso que vocês queriam? Não me amolem mais, por favor...”

VINTE E NOVE

O bunker estava deserto e com ares de cidadela sitiada. Roupas jogadas no chão, restos de comida na ampla mesa da cozinha, banheiros em desordem, camas por fazer... Fátima soltou um “Que porra é essa?!” que ecoou nas paredes do casarão deserto e voltou para os seus ouvidos como um bumeranque sonoro.

Intuitivamente, chegou à conclusão de que ali deveria ter o dedo do alcaguete Jardel. “Dedo-duro, filho da puta...”, xingou baixinho.

Achava que Jardel ou Matias deviam ser os responsáveis pela debandada, oferecendo emprego na campanha, prometendo cargos no futuro governo. Fátima andou pelo bunker como um fantasma solitário. Abria e fechava as portas dos quartos, afastava as roupas nos armários para ver se achava alguma amiga escondida. Chamou, uma por uma, todas as moradoras, deu uns gritos pra ver se ouvia a resposta. Tudo em vão. O antigo bunker, tão cheio de gente e animado, estava agora deserto, silencioso como uma capela. Fátima sentou no degrau mais alto da escada dos fundos e pensou: “Agora eu tô ferrada...” Levantou-se e disse bem alto: “Fugiram todas, não é? Pois vão à merda!”


TRINTA


Fátima quase morreu do coração ao sentir que alguém se aproximara por trás e colocara as duas mãos sobre os seus olhos. Deu um grito agudo ao mesmo tempo em que ouvia uma voz de mulher dizer: “Adivinha quem não fugiu com as outras...?”

Quando o coração desistiu de sair pela boca, Fátima reconheceu Sandra Mara, a ex-aluna do ex-professor, ex-famoso advogado, ex-adulador de Fátima, Dr. Leme. Abraçaram-se. Fátima, por incrível que pareça, chorando de alegria porque não ia mais passar a noite sozinha naquele bunker deserto e abandonado. Sandra Mara também aproveitou pra chorar um pouco e descarregar a tensão. Depois, as duas passaram horas conversando. Fátima queria saber como é que Sandra tinha entrado no bunker sem ela ouvir o barulho da porta. A amiga respondeu: “Ué... pela passagem subterrânea. Esqueceu que temos uma?”

Aí, passaram um bom tempo esculhambando todas as mulheres, falsas amigas, que tinham se bandeado para as hostes de Jardel, o candidato virtualmente eleito.

Lá pelas tantas resolveram dormir. Fátima foi para o seu quarto. Estava quente, uns 37 graus no barato. Tirou a roupa e se jogou na cama. Não demorou muito e ouviu umas batidas de leve na porta do quarto. Disse: “Quem é?” e ouviu Sandra Mara responder: “Sou eu, Fa... Posso dormir aí no seu quarto? Tem uma cama sobrando, não tem?”


FIM DA TERCEIRA PARTE

FOTONOVELA


QUARTA E ÚLTIMA PARTE


UM


A campanha está chegando ao fim. Há um debate, com todos os candidatos, marcado para o sábado. O jornalista Roberto Matias decide sabatinar, ele mesmo, em pessoa, o candidato Jardel, líder absoluto em todas as pesquisas. Estão sentados frente a frente, um olhando nos olhos do outro. Matias pergunta de chofre se Jardel sabe o que significa a sigla BNDES. Jardel finge que não é com ele. Matias resolve dar uma ajuda: “BNDES – Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social, sabe o que é?” Jardel confessa que nunca ouviu falar, mas conclui que se é banco deve mexer com dinheiro, e se a “poderosa” quiser, se estiver precisando, depois de eleito pode liberar uma grana, sem problemas...


DOIS


Dr. Leme, o delegado Otaviano e o fiel escrivão Peninha foram atrás do manuscrito inédito do famoso escritor.

Seguindo as indicações que constavam no papelzinho que Fátima deixou sobre a mesa do delegado, chegaram a um muquifo na favela de Acari, no complexo do Alemão. Aliás, é bom lembrar que o complexo do Alemão nada tem a ver com o Alemão complexado. Hitler não chegou a tanta maldade.

O barraco era de chão batido e teto de zinco. A lua andava arisca por trás das nuvens e as estrelas salpicavam as idéias da galera. Tiveram que cavar no lugar mencionado: debaixo da cama sem colchão. Otaviano tinha trazido uma pazinha pequena, que não servia pra nada. Dr. Leme apareceu na porta do muquifo e perguntou aos traficantes, ali reunidos, se alguém poderia emprestar uma picareta ou ...

Foi nessa hora, coincidentemente, que as balas começaram a voar. Foi tiro pra tudo que é lado. Os três se jogaram no chão e não tiveram tempo de sacar o que quer que fosse. Antes mesmo de respirar, o traficante-mor já estava com o pé na garganta de Dr. Leme, querendo saber a mando de quem os mandou ali.





TRÊS


Dr. Leme não podia falar, é claro. Otaviano estava com tanto ódio que era capaz de explodir a qualquer momento, de modo que, mais uma vez, Peninha salvou a situação.

Disse respeitosamente ao traficante-mor que tinham vindo procurar um manuscrito, o texto de um escritor há muito falecido. Na hora o traficante-mor ficou ainda mais puto da vida. Falou: “Que caralho de manuscrito é esse? Tu é tira ou dedo-duro?”

Peninha explicou que era apenas um texto: “Ficção, entende? É tudo mentira inventada por uma cabeça doentia...”

Otaviano por pouco não pulou no pescoço de Zé da Pena. Dr. Leme achou que a vaca tinha ido pro brejo, com ou sem boquete.


QUATRO


É claro que o traficante-mor não entendeu foi porra nenhuma. Dito isso, estava prestes a apertar o gatilho, quando Zé da Pena soltou um: “Foi o ‘Alegria de Pobre’ quem nos mandou aqui”.

Pra quê?! Ao ouvir a alcunha “Alegria de Pobre”, todos os traficantes – o mor, o sub-mor, o sub do sub, etc. – todos se desdobraram em desculpas. Só faltou pedirem a benção ao delegado Otaviano, que se fazia de ofendido e injuriado estava.

Mexeram os pauzinhos e rapidamente apareceu o manuscrito, o objeto de desejo de Otaviano, Dr. Leme e Peninha, um maço de folhas amareladas que quase transformou em tragédia uma ingênua visita ao complexo do Alemão.


CINCO

Fátima acordou sentindo cócegas. Uma cosquinha estranha, achou que era um bicho no meio das suas coxas. Deu um grito e pulou da cama: “Socorro! Uma aranha!”

Sandra Mara sorriu e limitou-se a dizer enigmática: “Ainda não, ainda não...”

Fátima achou aquilo estranho, acendeu a luz do quarto e perguntou o que é que Sandra Mara estava fazendo na sua cama.

A amiga respondeu: “Desculpe se te assustei, querida... Não fiz por mal”.


SEIS


Para evitar disputas e injustiças, o manuscrito deveria ser lido em voz alta. Dr. Leme, com aquele vozeirão que Deus lhe deu, foi escalado para a leitura. Otaviano, que era um sujeito até certo ponto violento, mas de bom coração, mandou buscar o megabandido Rosaldo, o indecifrável “Alegria de Pobre”. Quando estavam os quatro no mais absoluto silêncio, sentados na sala do delegado, Dr. Leme começou:

Prefácio


O autor vem por meio desta demonstrar seu mais profundo arrependimento por tudo aquilo que tem escrito ao longo de sua vida mundana.

Porém, este horror de tantos anos, a que os leitores foram submetidos, já está definitivamente exorcizado. Basta de anomalias! Chega de erotismo e achincalhe da alma humana. Digo NÃO! Ao demônio e às suas tentações.

Daqui para frente, apenas compaixão, amor ao próximo e bons exemplos serão ofertados às famílias brasileiras. Esqueçam tudo o que eu disse e escrevi. Uma nova era de paz e amor acaba de nascer com o presente opúsculo.

N.R.”


SETE


A decepção foi completa e unânime. Otaviano, lívido, as mãos crispadas, os olhos rútilos e esbugalhados, parecia não acreditar no que Dr. Leme acabara de ler. Virou-se para “Alegria” como uma criança a pedir socorro e explicações. Só faltava chorar e bater os pezinhos.

Dr. Leme não sabia onde enfiava o manuscrito; o criminoso Rosaldo arregalou os olhos e repetiu sem parar: “Não é possível, não é possível...”

Lá no seu canto, o escrivão Zé da Pena pediu: “Calma, gente... Nada de precipitações. Reparem a assinatura. Nélson nunca assinou N.R. Isso tem mais cara de “Nota da Redação” do que de “Nélson Rodrigues”. Infelizmente acho que o manuscrito é apócrifo.”

Tipo ‘Protocolo dos Sábios do Sião’, senhor José?”, perguntou o bandido Rosaldo.

Zé da Pena fez tremer no ar a mão direita, como quem concorda: “Por aí, por aí...”

Fomos enganados, caralho! Foi aquele safado lá em Acari”, gritou Otaviano.

Dr. Leme ficou mudo. Não ia dar pitaco em tema tão controvertido.




OITO

Alegria” não parava de resmungar: “Não é possível, não é possível...” Otaviano, que não estava pra brincadeira, soltou o verbo: xingou, mandou Peninha levar o bandido de volta à cela, berrou que ia voltar ao Alemão e pegar o safado que enganou todo mundo. Agarrou o manuscrito com ódio de marido traído e o atirou pela janela.

Peninha gritou: “Não, Otaviano! Não!” Mas já era tarde. Dr. Leme correu para a janela a tempo de ver que o manuscrito apócrifo caíra sobre o caminhão de verduras, que logo em seguida dobrava a esquina e desaparecia, levando para sempre aquele caderno de capa negra, que um dia fora considerado uma grande descoberta, mas que agora jazia incógnito entre alfaces e repolhos.

Uma pena...”, disse Peninha. “Não passamos do prefácio...”

O megabandido Rosaldo desceu sozinho as escadas em direção à cela chorando copiosamente e dizendo: “Enterraram a minha última esperança...”

Dr. Leme não disse nada, mas pensou:”Caralho... Até parece que jogaram fora um manuscrito de Homero, quem sabe, os originais da Odisséia, ou do Retrato do Artista Quando Jovem...hahaha”

Coincidência ou não, um sujeito de nome Ulisses abriu respeitosamente a porta da sala, pediu licença e disse que veio a mando do presidente Jardel.


NOVE


Ficaram os três olhando para a cara do sujeito, que continuava de pé na entrada da sala. Otaviano, que não estava para brincadeiras, soltou um “Desembucha, porra...” tão alto, que fez o sujeito tremer. Foi aí que ele disse que se chamava Ulisses, Ulisses Ribeiro de Lima, e voltou a revelar que trazia um recado do virtualmente eleito presidente da República.

Que recado?”, foi a vez de Dr. Leme berrar.

Ulisses pediu calma com as mãos e fez um gesto perguntando se podia sentar. Peninha empurrou a cadeira na sua direção. O sujeito sentou e disse que Jardel muito sofria com a falta de seus “verdadeiros amigos” na campanha presidencial. Começou a contar que Jardel estava cercado de víboras, que a pior delas era Matias e sua diabólica organização televisiva, mas aí o delegado Otaviano cortou com uma certa irritação: “Jardel quer o quê da gente?”

Amizade, disse Ulisses... Apenas a amizade de vocês. Diz que está disposto a tudo para tê-la de volta. Podem pedir o que quiserem.”

Otaviano olhou para Dr. Leme, que olhou para Peninha, que olhou para Ulisses, com aquela cara de Ribeiro de Lima, coitado. Todos ostentavam até uma certa dose de compaixão. Sabiam direitinho que missão impossível seria destinada a Jardel, o autoproclamado presidente da República, já eleito por todas as pesquisas.


DEZ

Fátima descobriu que aquele negócio que subia no meio das sua coxas não era propriamente uma aranha, mas sim a mão de Sandra Mara. Deu um esporro daqueles na amiga. Disse que seu negócio era homem, oras... Que nunca tinha transado com mulher e coisa e tal... Depois ficou com pena. Sandra Mara chorava e pedia desculpas. Fátima acabou abraçando a outra e passando a mão nos seus cabelos.

Depois deu o “estalo” e disse para Sandra: “Sabe qual é a grande diferença entre um homem e uma mulher? Vou te explicar: se eu fosse um homem e você um veado, já tinha metido a mão na tua cara. Mas como somos mulheres e você é lésbica, estamos nós duas aqui abraçadas... mas pode parar por ai. Meu negócio é homem, quanto mais macho, melhor...”


ONZE

Ulisses saiu da sala de Otaviano com a sensação de que escapava de um hospício. Chegou ao luxuoso ginásio de esportes que servia se sede para a campanha e disse a Jardel: “Aqueles caras são loucos, presidente. Querem recuperar um suposto manuscrito inédito de Nélson Rodrigues, que um deles atirou pela janela, vê se pode?”

Saiu dali com a missão-quase-impossível de encontrar o manuscrito: “Custe o que custar, duela a quien duela”, disse Jardel em ritmo de Mercosul. Esquadrinhar a cidade atrás de um caminhão de alfaces e repolhos, carregando um manuscrito do grande escritor, seria uma verdadeira epopéia. Ou, quem sabe, uma odisséia...

DOZE


Dois dias depois, Ulisses Ribeiro de Lima voltou com o manuscrito de Nélson. Encontrou Jardel refestelado no sofá. Estava gordo, obscenamente gordo, triste como ele só. Ulisses perguntou o que era e tentou alegrar o presidente virtual e praticamente eleito. Jardel perguntou onde estavam seus amigos: “Não aguento mais essa história de ser presidente e viver sozinho, Ulisses....”

É a solidão do poder, Jajá. Vai se preparando, vai se preparando... mas pode contar com este amigo que vos fala”, respondeu Ulisses de olho na Casa Civil ou, quem sabe, na Casa da Moeda. Jardel, seu amigo Jajá de tantas noites em claro, tinha prometido uma recompensa pela dedicação e presteza do fiel Ulisses. O único empecilho ainda era o invejoso Matias, aliado ao truculento Maia, sem falar naquelas putas do antigo bunker que viviam aos pulinhos nos corredores do QG da campanha. De qualquer forma, o sobrenome Ribeiro de Lima combinava mais com um ministério, quem sabe, o das Minas e Energia...


TREZE


O aspecto não era dos melhores. Algumas páginas tinham sido danificadas, a introdução, ou melhor, o prefácio tinha desaparecido misteriosamente. O cheiro lembrava uma sopa de legumes feita com sobras do Ceasa.

Mesmo assim, Otaviano agarrou as folhas grampeadas e arvorou-se em proprietário do manuscrito ou, no mínimo, o que teria legítimo direito adquirido de ler em primeiro lugar os originais do imortal Nélson, aquele que, no seu entendimento, nunca precisou de academia para ser lembrado eternamente. Ordenou que Peninha trouxesse de volta à sala o megabandido Rosaldo e começou a devorar o manuscrito, sentado na única poltrona de toda a delegacia. Não deixava ninguém se aproximar. De vez em quando soltava uma gargalhada e dava um murro na própria perna. Dali a pouco gritava: “Mas é uma puta, mesmo!”

Dr. Leme, Peninha, “Alegria” e o assessor Ulisses ficaram por ali mosqueando, na maior curiosidade.


QUATORZE


Fátima e Sandra Mara estavam macambúzias, em meio a uma, digamos, discussão filosófica, quando alguém bateu na porta do bunker. Foram as duas abrir e não acreditaram no que seus quatro olhos lhes diziam: lembram-se de Eunice? Essa mesma, a empregadinha que ascendeu socialmente, a “Judith” de Dr. Leme, o advogado sem causa, lembram-se? Pois lá estava ela, literalmente deslumbrante, porte de rainha de Sabá, Salomé ou qualquer coisa do gênero. Olhava as antigas amigas com ternura, mas também com indisfarçável superioridade.

Depois de um “Você por aqui, Eunice?” e de outro: “Quem é vivo sempre aparece...”, a ex-negrinha, agora uma elegantérrima morenaça em seu modelo exclusivo de futura primeira-dama, perguntou se não iam deixá-la entrar em seu antigo e sempre saudoso reduto.

Fátima não aguentou, deu uma gargalhada daquelas e soltou a mão nas costas da visitante: “Entra, sua bandida... Conta pra gente tudo o que te aconteceu.”

Em resumo, Eunice, a deslumbrante, estava de casamento marcado, para o próximo sábado com o candidato preferido por todas as torcidas, o já-eleito-Jardel. Tinha vindo trazer em mãos os convites.

As duas, de queixos caídos, perguntaram a uma só voz se ela aceitava um suquinho de abacaxi. Eunice olhou com aquela cara de “que pobreza...!” e devolveu: “Vocês têm um licorzinho aí? Marrasquino, Apricot, até Cointreau serve...”


QUINZE


A noite já ia alta quando Otaviano se deu por satisfeito e proferiu seu veredito: “É falso... Bem escrito, o manuscrito... mas falso como juramento de político. Apócrifo, como diz o Zé.”

O escrivão pega o manuscrito, folheia, cheira, passa o dedo e olha contra a luz. Encara Ulisses, que desvia os olhos, e diz: “Escuta, que brincadeira é essa? Isso aqui não é, nunca foi, jamais será o mesmo manuscrito que Otaviano atirou pela janela!”

Dr. Leme foi o primeiro a perguntar quais seriam as diferenças. O delegado arregalou os olhos e o megabandido Rosaldo estalou os dedos, como quem se prepara para uma empreitada de natureza corporal, um tanto ou quanto violenta.

Peninha explicou que aquele manuscrito que Otaviano atirou pela janela era de fato escrito à mão, enquanto este que Ulisses trouxe tinha sido feito em computador, com letras que imitam, mal e porcamente, a caligrafia. O cheiro lembrava a caçamba de lixo do Ceasa, mas essências de repolho e alface podre é o que não falta no mercado. Finalmente, o escrivão, guindado à posição de perito em manuscritos apócrifos, olhou duro para Ulisses e perguntou educamente: “Como é que o senhor explica as diferenças, nobre assessor?”


DEZESSEIS


Ossos do ofício, ossos do ofício...”, era tudo o que Ulisses repetia, de olhos baixos para não encarar nenhum dos quatro, que na verdade queriam o seu escalpe. Não colou. Sua próxima frase foi: “Eu só estava tentando ajudar, acreditem...”

Ninguém acreditou, é claro, e então o assessor Ribeiro de Lima veio com a história de que aquele manuscrito feito em computador talvez fosse muito mais verdadeiro do que o outro que tinha ido parar no caminhão de verduras.

Dr. Leme não aguentou. Com tantos anos de magistério, ensinando lógica, ética e outras disciplinas cabeludas, não poderia engolir aquele negócio de que alguma coisa pode ser mais verdadeira do que outra. Pediu a palavra e começou uma breve exposição sobre a natureza da verdade e... Por pouco não levou com o cinzeiro na testa.

Ulisses gaguejou uma explicação fantasiosa, que ninguém sabia se fazia parte de um plano pré-elaborado, para enfrentar possíveis contratempos, ou se ele inventara agora, tentando escapar de um provável massacre. “Alegria”, com seus três metros de altura por dois de largura, achou que estava na hora de fazer as coisas do seu jeito. Pediu licença aos senhores presentes e levantou Ulisses pelo colarinho. “Fala a verdade uma vez na vida, cara!”, disse ele. Estavam todos esperando o pior, em particular o assessor Ulisses, mas em seguida Fátima abriu a porta da sala sem bater e, vendo a inusitada cena, disse: “Alegria! Larga o pobre homem no chão...” O que uma vozinha doce e imperativa não faz por um pobre diabo, homem de confiança do futuro presidente, praticamente a caminho do planalto...


DEZESSETE


O megabandido atendeu de pronto ao comando de sua musa e abriu mão de Ulisses, de modo que o assessor veio a despencar com tudo.

Depois que os quatro injuriados amigos explicaram toda a situação a Fátima, a menina pôs ordem no terreiro e deu a palavra a Ulisses, que ajeitava o paletó com a dignidade de um crápula defenestrado.

O homem tinha uma veia de artista... Isso tinham que reconhecer. Contou que o partido de Jardel era comandado de fato por um escroque, um avarento, por que não dizer, um agiota da pior espécie: “Faz dois anos que peguei duzentas pratas emprestado. Tô devendo um pau e meio...”, contou Ulisses, entre revoltado e inseguro com a reação dos quatro.

Dr. Leme, com o seu proverbial raciocínio lógico e matemático, fez as contas e até que achou barato: “Ô, meu... Queria o quê?! Pegou duzentas pratas, dois anos depois tá devendo mil e quinhentos... Agiota é assim mesmo, pombas.”

Ulisses esclareceu, com toda a cortezia que lhe era peculiar: “Senhor Dr. Leme, digníssimo advogado, emérito professor universitário, peguei duzentos reais há uns dois anos e estou devendo UM MILHÃO E MEIO!!!”

Foi um “Oh...” generalizado, desses de novela das seis metida a comédia. Fátima novamente exibiu seu senso prático: “Pois não pague, oras... Não pague e fim de papo.”

A doce menina não sabe o que é ficar devendo para certos grupos poderosos...”, disse o assessor de Jardel.

Otaviano quis saber quem era quem na história do empréstimo, mas Ulisses foi ao mesmo tempo reticente e sutil para insinuar que talvez, quem sabe, poderia haver uma remota ligação entre a odiosa figura do agiota e a grande rede, talvez na pessoa de um primo ou irmão de Matias, vai ver um primo-irmão?



DEZOITO


O manuscrito de Nélson foi relegado a segundo plano depois que surgiu a história do agiota e da gigantesca, obscena dívida que não parava de crescer.

Dr. Leme veio lá com o seu indefectível “data venia” para inquirir a respeito das providências que Jardel, o futuro presidente de todos os brasileiros e brasileiras, poderia tomar não só contra aquele agiota em particular, mas também contra a banca da agiotagem em geral.

Ah... nobre causídico, mil presidentes juntos não teriam a força que a banca possui. Nosso Jardel pouco poderá fazer”, esclareceu Ulisses.

Otaviano e Fátima que não tinham cerimônia para tratar de certos assuntos, pularam no pescoço de Ulisses: “Nosso Jardel, porra nenhuma...! Aquilo é um safado de um mau-caráter”, disseram a uma só voz.

Foi só então que Peninha lembrou do manuscrito apócrifo e da explicação que Ulisses continuava devendo.


DEZENOVE


O assessor de Jardel podia não ser lá muito honesto e verdadeiro, muito menos bem-intencionado. Mas uma coisa não se podia negar: o homem tinha uma capacidade sobre-humana de inventar histórias, criar personagens, compor situações, tudo isso com arte e genialidade. No mínimo, Ulisses era um escroque do primeiro time; no máximo, um guru daqueles... Os políticos adoram as duas coisas.

Em poucos minutos estavam todos prestando a maior atenção na história que Ulisses Ribeiro de Lima contava: o manuscrito não era falso, mas também não era inteiramente verdadeiro. Teria sido, isso sim, psicografado por um jovem médium, que se comunicava com o espírito do grande escritor. Tadeu era o nome do jovem. Se quisessem, Ulisses poderia levá-los até ele. Fátima quis; os outros também quiseram logo em seguida.


VINTE


Uma casa simples, porém confortável. O bairro também era pobre, mas nada que sugerisse penúria, miséria extrema, essas coisas que estamos acostumados a ver na periferia. O médium tinha um aspecto de jovem de quem não já não é tão jovem quanto parece. Vivia sozinho, ou melhor, com um cachorro dálmata e um pintassilgo que não parava de cantar um minuto.

Uma negra cuidava da casa e dos negócios de Tadeu, o médium, que não tinha tempo para insignificâncias terrenas. A negra fez todo mundo tirar o sapato antes de entrar em casa. Depois bateu com um galho de arruda na testa de Fátima e resmungou umas coisas no dialeto Bantu. Fez aqueles cumprimentos com os ombros cruzados e saiu levando o cachorro quando Tadeu entrou na sala.

Otaviano pensou em ir direto ao ponto, mas Zé da Pena o cutucou e, mais que depressa, Ribeiro de Lima tomou a palavra. Disse que aqueles cavalheiros queriam conhecer o trabalho do médium e que estavam dispostos a pagar por uma sessão de psicografia ao vivo. Mais uma vez Peninha teve que segurar o delegado, enquanto Fátima e Dr. Leme, de mãos dadas, pareciam gostar da experiência.

Tadeu balançou a cabeça e esfregou as mãos. Chamou a negra, batendo com o pé no chão, e mandou que ela recolhesse cem reais de cada um dos presentes – era o preço de uma sessão de psicografia ao vivo. Dr. Leme ia chiar, Fátima ia levantar pra dez, Otaviano ia virar a mesa... mas o astuto assessor Ulisses pagou do próprio bolso a consulta: seiscentas pratas à vista, na bucha.


VINTE E UM


Tadeu saiu da sala sem dizer nada. Voltou logo depois, vestindo um manto amarelo cor-de-ouro e com um turbante prateado na cabeça. Estava descalço e parecia que seus olhos iam sair de órbita. Sentou, pôs a mão na cabeça, segurou o lápis sobre a folha de papel em branco. Não demorou muito e deu um pulo da cadeira. Para espanto dos presentes, esgoelou-se numa vozinha fina para dizer: “Nélson não escrevia à mão! Eu preciso de uma Olivetti portátil agora mesmo, aqui na minha frente...!”

Ficaram quase todos de boca aberta: Fátima, Peninha, Dr. Leme, Ulisses, “Alegria de Pobre”. Otaviano não se aguentou e começou a rir do chilique de Tadeu. Antes que Peninha conseguisse detê-lo, o delegado disparou: “Vai ser veado assim na casa da mamãe, querida...”

Tadeu fingiu que não era com ele. Bateu o pezinho e lá se foi a mucama atrás de uma Olivetti portátil, de preferência cor-de-rosa. Antes de sair, ainda perguntou: “Não serve uma Remington?”


VINTE E DOIS


Quando tudo já estava pronto: a máquina de escrever Olivetti portátil em frente ao médium, o clima de expectativa respeitosa, um silêncio sepulcral... eis que berra a campainha do celular do assessor Ribeiro de Lima, que imediatamente pediu desculpas e foi para um canto da sala murmurar coisas como “sim, senhor...”, “estou indo aí...”, “pode deixar...” e outras expressões comprobatórias da mais absoluta subserviência.

Desligou o aparelho e disse: “Senhores, sinto muito... Preciso sair agora. Trata-se de uma emergência”. Mais que depressa cruzou a porta de entrada e ganhou a rua, pegando o primeiro táxi que apareceu na sua frente.

Ficou um olhando para a cara do outro, sem entender direito o que estava se passando. Tadeu pediu silêncio, como se alguém estivesse falando alguma coisa, e voltou a se concentrar: a mão na testa, os olhos semi-cerrados, a Olivetti ali na frente, imóvel e desafiadora... Ficou assim por uns cinco ou seis constrangedores minutos. Quando voltou a si, desfigurado, disse: “A corrente foi quebrada... Nada mais posso fazer”.

A negra meio que tocou a turma. Otaviano foi o único que saiu bronqueado. O resto achou incrível a história da máquina de escrever para psicografar Nélson Rodrigues. Cada uma...

Na rua, o megabandido Rosaldo levantou a questão do dinheiro, as seiscentas pratas que tinha custado a consulta. Peninha disse: “Quem pagou não foi Ulisses? Ele que se entenda com o médium Tadeu e exija o dinheiro de volta.”

Mais tarde, bateu a desconfiança: se acaso os dois, Tadeu e Ulisses, estivessem de comum acordo? O que não era impossível... até provável. O mistério do manuscrito desaparecido continuava a desafiar a lógica de Dr. Leme, a truculência de Otaviano, a inteligência de Peninha, a intuição de Fátima e..., digamos, o ódio de “Alegria de Pobre”, isso sim era um perigo.

VINTE E TRÊS


Fátima pediu que a acompanhassem até o bunker, mas Otaviano achou melhor que dessem primeiro uma passadinha na delegacia. Lá chegando, deram de cara com viaturas na porta do prédio, sirenes ligadas, PMs armados até os dentes, o povo em volta se espremendo para ver a desgraça de perto. Tudo isso levou Peninha a dizer: “Otaviano, acho que aconteceu algo terrível: uma insurreição de presos na nossa ausência, e agora?” O delegado olhou para Rosaldo, que devolveu com uma cara de “Não me metam nisso, porra!”

Dr. Leme achou melhor que os quatro esperassem ali enquanto ele, na qualidade de professor, advogado militante, filiado à OAB, ia ver o que estava acontecendo.

Dr. Leme foi e voltou depois de uma eternidade medida em quinze longuíssimos minutos. “Otaviano, a barra pesou. Tem uma ordem de prisão contra você. Estão te acusando de favorecer e acobertar a fuga do megabandido Rosaldo de Tal, o nosso amigo aqui “Alegria de Pobre”.

Ficaram os quatro de queixos caídos. Até que o pivô da celeuma resolveu invocar a verdade como testemunha de defesa: “Mas eu não fugi, porra? Tá todo mundo de prova.”

Peninha deu um leve tapa nas costas de Rosaldo, assim como quem aprova o seu caráter, mas também leva em conta a sua inocência: “Não importa, meu amigo... Você nunca podia ter saído da delegacia. Agora estamos todos ferrados”, disse ele.

Fátima ficou puta dentro das calças jeans. Virou-se para os homens e disse: “Vocês não vão se entregar, não é? Vamos todos para o bunker. Aquilo lá tá vazio mesmo. Faz tempo que só tô eu e Sandra Mara naquele casarão...”

Difícil decisão. Submeter-se a uma injustiça em obediência à lei? Ou desafiar a prepotência e dar início a uma luta inglória, que ninguém, nesse sub-mundo do crime, pode dizer onde vai parar?


VINTE E QUATRO


Dr. Leme ligou o rádio do carro e no mesmo instante captou uma notícia sobre a fuga de um perigoso marginal, de nome Rosaldo, vulgo “Alegria”, que estava deixando toda a polícia em estado de alerta máximo e a cidade apavorada. Dr. Leme mandou “Alegria” se abaixar o mais que podia e, sem perguntar nada aos outros, girou a chave da ignição e deu a partida no carro, rumo ao bunker de Fátima. Em seguida, tratou de explicar que se continuassem parados ali naquela esquina em breve estariam todos em cana, o que absolutamente não constava de seus maltraçados e ainda confusos planos para aquela noite...

No caminho, Otaviano engoliu em seco ao perceber que a delicada e frágil menina segurava carinhosamente a áspera manopla do gigamarginal, agora em fuga involuntária. Dr. Leme olhou pelo retrovisor e não pôde deixar de se recriminar quando viu Fátima e “Alegria” agarradinhos e imediatamente se lembrou do velho e surrado King Kong. Mas a verdade é que o marginal mais temido do país, depois de conhecer Fátima, aquela que já teve poderes até pra curar erisipela e espinhela caída, sem falar em bronquites, mau-olhado e dor-de-cotovelo, depois de Fátima o temível Rosaldo transformara-se por completo. O tigre faminto, a pantera negra de becos, ladeiras e quebradas, nem miar não miava mais...


VINTE E CINCO


A comoção foi, digamos, nacional. A poderosa rede, na qual Matias cada vez mandava mais, publicara uma estranha e bombástica reportagem, destinada a jogar por terra a reputação de Jardel, o ex-candidato praticamente eleito. Eram cenas malfimadas, fora de foco, com pouca e amarelada luz. Disseram mais tarde que tudo tinha sido cuidadosamente preparado para transmitir a falsa idéia de que se tratava de um vídeo amador.

Uma coisa era certa: Jardel, de pijama verde, sentado na imensa cama do quarto do luxuoso hotel, tinha diante de si uma enorme mala cheia de dólares. Parece que já eram sobras da campanha milionária, que Jardel estava querendo mandar pro exterior, ninguém sabe ao certo. Só o que todo mundo viu foram pilhas e pilhas de dinheiro, um dinheiro verde, desses que o eleitor comum nunca teve em mãos, mas que, dependendo da quantidade, é capaz de acabar com a reputação de qualquer político.


VINTE E SEIS


Fátima disse: “Viu só?”; Dr. Leme resmungou: “Quem diria...”; Peninha comentou: “Já tinha ido longe demais; Otaviano deu de ombros: “Foda-se!” Só quem não disse nada foi o megabandido, o autêntico marginal Rosaldo, aquele que nunca tentou nada fora da sua área de atuação.

Estavam na sala do bunker assistindo às cenas da novela “Jardel nadando em dinheiro espúrio”, a nova atração que mal começara na poderosíssima TV campeã de audiência, bem no espaço do telejornal. Sandra Mara veio da cozinha carregando uma bandeja com acepipes e latinhas de cerveja. Olhou aquilo e abriu a boca para dizer alguma coisa como: “Aquele lá não é o ...” Não pôde completar a frase. As sirenes das viaturas começaram um barulho infernal. Logo depois um sujeito passou a gritar no megafone que estavam todos cercados e que deviam sair com as mãos para cima, pois eles iam invadir a casa. “Nós vamos invadir agora mesmo e levar todo mundo!”, berrou o oficial da PM no megafone.

Fátima se sentiu ofendida. A casa era dela, responsabilidade sua, e ninguém ia invadir assim sem mais nem menos. Abriu a porta da sala e enfrentou a tropa sem medo: “Têm um mandado? Alguém aí trouxe uma ordem judicial para revistar a casa? Fiquem sabendo que não tem nenhum criminoso aqui em casa!”

É claro que ninguém se lembrara deste pequeno detalhe. O capitão ainda quis entrar na marra, mas o representante do secretário impediu: “Vai dar problema, vai dar problema...” Tinham que acordar um juiz e fazê-lo assinar a tal ordem de busca e apreensão.


VINTE E SETE

A comoção foi nacional, até certo ponto internacional, levando-se em conta que o escândalo vazou para os países do chamado cone sul. Jardel passou de candidato eleito, amado e predestinado, a ex-candidato escorraçado, trapaceiro e por todos odiado.

De nada adiantaram as explicações mirabolantes sobre a origem dos dólares: seriam empréstimos de entidades financeiras para ajudar a pôr fim à fome de milhões de brasileiros, isso logo após a vitória de Jardel, é claro. O povo não engoliu, a imprensa zombou e a grande rede martelou o tempo todo na mesma tecla: “Por que no vídeo amador o candidato aparecia quase que inteiramente nu, esfregando-se nos dólares? De onde vinha o dinheiro? Que ligações inconfessáveis havia entre Jardel e o poder econômico?”

Os eleitores foram à loucura. Queriam linchar o candidato, surrar toda a equipe, com a honrosa exceção do jornalista Roberto Matias, a quem era atribuída a realização do vídeo pseudo-amador. Antes que o galo cantasse três vezes, Jardel estaria na lona – de onde, aliás, nunca deveria ter saído, diziam os inimigos, cada vez mais numerosos.


VINTE E OITO


Fátima achou melhor não esperar a volta da tropa de choque com o tal mandado. Até porque se invadissem o bunker iam descobrir que estavam todos ali escondidos e Fátima ia passar por mentirosa, coisa que odiava, além de responder a um processo por dar abrigo a um criminoso, a outro por formação de quadrilha, a um terceiro por obstruir a ação da justiça e por aí vai...

Conduziu os quatro homens mais procurados do país em direção à passagem secreta, aquela que ia dar no campinho de futebol. Sandra Mara foi junto. Era melhor esquecer o bunker para sempre e, junto com ele, todos os bons e maus momentos que ali viveram.

No caminho, Dr. Leme pensava: “Onde é que eu fui amarrar minha égua...” Peninha e Otaviano avaliavam em silêncio se era melhor os dois se entregarem aos colegas de profissão ou partirem de uma vez para a vida clandestina, ao lado de um negão que vinha a ser, por força de preconceitos, o bandido mais temido do país.

De mãos dadas com Fátima, “Alegria de Pobre” teve uma ereção involuntária e pensou: “É hoje que eu me acabo em cima dessa baixinha”. Sandra Mara viu os dois agarradinhos e se moeu de ciúmes: “O que é que ele tem que eu não tenho?”, pensou.

Fátima, parece que estava no mundo da lua, mas não deixou de observar o tamanho da “ferramenta” de Rosaldo: “Caraca... Isso é que é um autêntico pé-de-mesa... Se eu casar com ‘Alegria de Pobre’, na segunda noite tô mais larga que cama de motel”, pensou e riu baixinho, pra ninguém ouvir.


VINTE E NOVE


O primeiro a sair da catacumba secreta foi “Alegria de Pobre”. Subiu a escada de madeira, moveu sem dificuldades a tampa de ferro fundido e abriu o buraco na lateral do campinho. Quando pôs a cara pra fora ouviu um grito feminino, de espanto ou de pavor, o som, lancinante, era intermediário entre as duas reações exageradas. Para sorte sua, não era apenas uma mulher indefesa a ver o rosto de “Alegria”. Na verdade, lá estavam a negrinha Eunice, vestida como uma simples empregada doméstica dos velhos tempos, a veterana Helenice, a estagiária Vanessa Mendes, a inspetora lésbica... Todas querendo entrar pela abertura por onde o gigabandido Rosaldo pretendia sair com a sua turma.

Traidoras!, disse Fátima. Agora que estão na merda querem voltar para o bunker, não é?”

Era.

Fátima nada contou às ex-amigas e correligionárias. Puxou Sandra Mara para fora da passagem secreta e deixou todas as outras se enfiarem lá pra dentro do buraco, sem dizer uma palavra sobre a invasão que em breve aconteceria. “Tem horas que o silêncio não deixa de ser uma vingança”, pensou.



TRINTA

O campinho estava escuro. Na baliza à direita, ainda havia alguma luz, como dizia a antiga música: pálida, mortiça... Dr. Leme notou que nem as mariposas se entusiasmavam.

Ficaram os quatro se olhando, e Fátima concluiu que é diferente o olhar de um homem que não tem para onde ir.


TRINTA E UM


Dividiram-se. Fátima, “Alegria” e Sandra Mara seguiram para o norte; Peninha achou que já estava na hora de visitar sua mãe em Mato Grosso do Sul; Dr. Leme ofereceu uma carona ao Delegado Otaviano, que recusou polidamente e disse que iria dar uns telefonemas para velhos amigos no Instituto de Identificação.

Tudo se resolve, tudo se resolve...”, disse Peninha, procurando animar os companheiros de desdita.


TRINTA E DOIS


Dias depois, Fátima e Sandra Mara entraram no cyber-café de uma cidadezinha da fronteira para ler os e-mails. O único que interessou, entre centenas de spams, foi o de Helenice: “Querida Fátima... Onde quer que você esteja, saiba que eu e todas as meninas estamos imensamente gratas a você, principalmente por não ter nos avisado, naquela noite no campinho, sobre a iminente invasão do bunker. Quero dizer, querida, que eles entraram com tudo. Arrebentaram a porta da frente a pontapés e esfregaram na minha cara um tal de mandado de busca e apreensão. Quando viram que ali só tinha mulher, menina... nem te conto, foi um Deus nos acuda. Queriam saber qual de nós era a ‘putinha da Fátima’, desculpe, mas foi essa palavra mesmo que eles usaram, aliás, várias vezes. Depois, quando se convenceram que nenhuma de nós era você, aí se acalmaram... Fiquei amiga de um sargento da PM, um veterano, gordo como um porco suado. Estamos juntos, sabe, Fa...? De casamento marcado para o mês que vem. Agradeço a você, querida, pois como diziam os antigos: Deus escreve certo por linhas tortas. Ah... Já ia esquecendo, diga a Sandra Mara que Eunice manda lembranças. Ela acha que Sandra e você foram feitas uma para a outra... Dr. Leme pede que você o espere, pois a qualquer momento aparecerá de novo em sua vida. Beijo na pontinha do nariz e recomendações a todos. Da sua amiga, Helê. P.S. Como vai seu romance com o facínora?”




TRINTA E TRÊS


De volta ao quartinho de pensão em que se hospedaram com identidades falsas, encontram sobre a mesa um bilhete de “Alegria de Pobre”: “Não é minha intenssão comprometer voces. Porisso adeus. Espero de corasão que seja felises.”

Fátima chorou, Sandra Mara a abraçou e Fátima disse: “Chega, chega... Vamos cuidar da vida.” Vai saber que vida elas teriam para cuidar...


TRINTA E QUATRO


A notícia de que o delegado Otaviano tinha sido finalmente preso caiu como um bomba nas altas esferas ministeriais. Depois que o novo governo, recentemente eleito, tomara posse com seu programa de austeridade e moralização, uma das principais promessas na área de segurança era justamente a prisão de Otaviano e sua “troupe”.

O novo ministro da Justiça, aliás, um antigo advogado de reputação duvidosa, chegou a marcar uma entrevista coletiva para anunciar oficialmente a captura. Nessa época corria nos bastidores dos jornais e emissoras de rádio e TV a informação de que as sobras de campanha do ex-candidato-escorraçado Jardel estavam servindo para financiar a fuga de seus antigos cupinchas: Dr. Leme, Fátima, Sandra Mara, o exonerado escrivão Zé da Pena e o ex-delegado Otaviano. O que jamais foi comprovado.

Infelizmente para o ministro, tudo o que ele tinha para apresentar diante das câmeras e microfones eram toscas imagens de um homem morto com mais de trinta balas no corpo. Rosto esquálido, barbudo, olhos fundos... parecia um Sadam, um Bin Laden tropical. Ainda não tinham feito os testes de DNA para provar que aquele era mesmo Otaviano. O maior indício, considerado por todos do governo como prova irrefutável, vinha a ser o livro de capa dura que o sujeito segurava junto ao corpo: “O Papel da Hipocrisia na Ética Contemporânea”. O que interessava não era tanto o título da capa dura, mas sim o verdadeiro livro que ela escondia: “Engraçadinha. Seus amores, seus pecados”.


Contam que Otaviano, pouco antes de morrer, pediu um beijo, um beijo na boca. Depois, estrebuchou no asfalto como um cachorro atropelado.







F I M

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